Experiência aprovada: ACLP realizará reuniões virtuais até o fim da pandemia

A Academia Cearense da Língua Portuguesa realizou, na noite dessa quinta-feira, 30, sua primeira reunião virtual. O encontro teve caráter informal, o que não impediu que questões relevantes fossem discutidas. Ao mesmo tempo, prestou-se para testar a possibilidade de se utilizarem as novas ferramentas de conexão on-line, enquanto perdurar a pandemia de Covid-19.

Aberta pelo presidente Teoberto Landim e operacionalizada, através da plataforma Zoom, pelo acadêmico Marcelo Braga, a reunião contou com a presença dos titulares Eulália Leurquin, Gorete Oliveira, Italo Gurgel, Myrson Lima, Paulo Lobão, Regina Barros Leal, Ritacy de Azevedo Teles e Vicente Júnior. Também acessou o espaço virtual o Prof. Anizeuton Leite, correspondente da ACLP em Jucás. A expectativa do presidente Teoberto é que eventuais dificuldades técnicas possam ser superadas, ao longo dos próximos encontros, possibilitando uma conexão ainda mais ampla e proveitosa entre os membros da entidade.

Sugestão apresentada ontem e aprovada por todos foi no sentido de que se estabeleça um calendário fixo para as reuniões virtuais, que passarão a se realizar na primeira quinta-feira de cada mês, sempre com início às 20:00h. O próximo encontro terá lugar no dia 6 de agosto, já em parâmetros formais, reproduzindo a agenda das reuniões presenciais. Assim, haverá espaço para leitura da Ata, os informes, as deliberações e mesmo a tradicional Hora do Vernáculo. Até lá, os acadêmicos que se propuserem expor sua produção nos encontros mensais devem entrar em contato, o quanto antes, com o Prof. Teoberto Landim, para o necessário agendamento.

Landim, que se encontra como Presidente ad hoc, uma vez que seu mandato expirou, colocou em pauta para a quinta-feira, 6 de agosto, discussão sobre a eleição da nova Diretoria e edição do próximo número da revista “Vernáculo”. A publicação, que normalmente circula no mês de outubro, quando se comemora o aniversário da Academia, deverá ter suspensa em 2020, voltando a circular, em 2021, com uma edição especial capaz de reunir a produção do biênio. É desejo do Presidente que aqueles acadêmicos que não conseguiram conectar-se com a reunião on-line de ontem procurem, ao longo desta semana, superar quaisquer problemas técnicos a fim de participarem plenamente, nos próximos meses, das atividades da Academia. O mais provável é que, numa postura inspirada pela prudência e respeito à vida, a ACLP somente retome as reuniões presenciais após o surgimento de vacina contra o coronavírus.

Sabedoria

Prof. SEBASTIÃO VALDEMIR MOURÃO, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 19

Vi o rosto de um cego que via
e nele, a agonia;
um sorriso nos lábios
e nele, a omissão;

vi um olhar triste
e nele, o padecimento;
vi cair uma lágrima
de quem não devia chorar
e nela, a hipocrisia;

vi a burguesia nas mansões
e com ela, fartura e prazer;
um mendigo na beira da rua
e nele, a ironia…

vi a verdade nos outros
quando não me via mais e, na verdade, a sabedoria.

Miragem

GISELDA DE MEDEIROS, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 16

Bem sei. O amor chegou, me fez visita.
E me deixou atônita, sem mim.
Chegou qual beduíno que, além, fita
uma miragem, qualquer cousa assim.

E sem pedir licença, foi entrando…
E, se apossando do que havia em mim,
rasgou meu peito, e, assim, foi-se alojando
no espaço acetinado de carmim.

Bendigo-te, ó miragem! Estou vencida!
Podes entrar… é tua esta morada,
onde ainda canta, em cada canto, a vida.

Só uma cousa, amor, eu mais almejo:
ama-me muito, faze-me tua amada,
para que, deusa, eu surja do teu beijo.

S.O.S. Português de A a Z – a, há, “há dez dias atrás”

SEBASTIÃO VALDEMIR MOURÃO, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 19

Use há: 

a) quando indicar tempo decorridopassado;   for equivalente a faz;

b) quando for verbo haver no sentido de existir.

ATENÇÃO! O certo é, então, há dez dias ou dez dias atrás, porque  já quer dizer tempo passado, tempo atrás. Nunca diga há dez dias atrás. Exemplos:

1) Não a vejo há mais de uma semana. = Não a vejo faz mais de uma semana.

2) Há muitos torcedores no estádio. = Existem muitos torcedores no estádio.

3) “Ela faleceu  dez anos!” (Valdemir Mourão. Histórias Contadas no Alpendre. p. 14, 2014).

4) “ mais de cem anos não vem à calçada, desde o tempo em que o acusaram do desaparecimento de crianças na Rua das Flores.” (Pedro Salgueiro. Dos Valores do Inimigo, p.102, 2006).

5)  “Algumas pessoas inda estão presas a antigas crenças como a de que no mundo não  lugar para novas lideranças.” (Assis Almeida. Histórias que Motivam. p.19, 2015).

Use a:

a) quando indicar tempo futuro, tempo  suficiente; indicar distância, medida;

b) quando admitir substituição pelas preposições em ou com.Exemplos:

1) Eu confessarei tudo daqui a dez dias = tempo futuro.

2) Estarei aqui a tempo para assinar o documento = em tempo, com tempo.

3) Minha casa fica a duas quadras daqui =  distância, medida.

4) “Numa dessas paradas, sol quente do meio-dia, vai que o Efrônio avista, a uns duzentos metros da Toyota, um senhorzinho, um “matuto” morador daquela casinha.” (Clauder Arcanjo, Cambono. p. 148, 2016).

5) “No dia seguinte começou o emprego, que ficava a quatro quadras dali, dava até para vir almoçar em casa.” (Carlos Roberto Vazconcelos, Mundo dos Vivos. p. 77, 2008).

6) “O aluno chegou a tempo de fazer a prova.” (Raimundo Evaristo Nascimento dos Santos).

29 de fevereiro de 2020 – ano bissexto

VIANNEY MESQUITA, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 37

Mil, dez mil anos não passa de simples
ponto que nos não é dado ver.
SIMÔNIDES DE CEOS. (*Lulis-Ceos, 586 a.t.c. + Agrigento-Itália, 488 a.t.c.).

Depois de 2016, conforme o Calendário Gregoriano, ora vigente na banda ocidental, este ano é o primeiro bissexto, pois hoje, 29 de fevereiro – só ocorrente de quatro em quatro anuênios – significa o fato de que o exercício fluente possuirá 366 dias, ao passo que os três anteriores perfizeram somente 365 períodos de 24 horas.

Ocorreu de amigos e pessoas modestas a mim chegadas, nomeadamente não muito afeitos ao trato literário, me perguntarem, com recorrência, acerca dessa dicção, empregada a miúdo com relação aos poetas e escritores pouco produtivos ou de produção apenas singular, ou seja, “por que Fulano é considerado poeta bissexto?”

Lembro-me de que, em 2012, conforme referido há pouco, penúltimo bissexto sucedido – o derradeiro foi 2016 –  as indagações mais afluíram, de modo que passo a narrar o assunto, evidentemente, sem profundidade científica, louvado apenas no conhecimento do senso comum adquirido à extensão temporal, na vida e na escola, o qual também se encontra à disposição de qualquer pessoa, em obras de referência de domínio público, facilmente acessíveis, como dicionários e enciclopédias.

 Colhi, então, a informação de que, no tempo do Império Romano, sob Caio Júlio César, consoante conta Caio Plínio Segundo, o Velho, o ano vulgar possuía 365 dias. Como o movimento de translação anual da Terra à volta do Sol somente se completa após 365 dias mais um quarto, as seis horas restantes ensejavam divergências entre o ano civil e o moto dos corpos celestes – estrelas, planetas, nebulosas, cometas etc.

Júlio César, então, convocou o astrônomo Sosígenes, de Alexandria, e contratou com ele a solução do problema. O Sábio egípcio, então, decidiu estabelecer que, de quatro em quatro anos, seria acrescentado um dia ao mês de fevereiro, resultado da soma das horas sobrantes de 365 nesses anos. Tal significa dizer que, após um período de 366 dias (bissexto = duas vezes sexto), se seguem três de 365 e um de 366. De tal maneira, não parece correto se dizer que um ano perfaz 365 dias e seis horas, dada a decisão do Astrônomo alexandrino de somar às 18 horas as seis do tempo bissexto para completá-lo, porém, com 366 conjuntos de 24 x 60 minutos.

Curioso é notar o fato de que todos os anos cuja expressão numérica é divisível por quatro são bissextos, com 366 dias, como nos casos de 1.600, 1.200, 800 e 2.000.

Os anos seculares, salvante esses do exemplo e outros cujos dois algarismos iniciais não se expressam como exatamente divisíveis por quatro, não resultam bissextos, razão por que o ano secular de 1.900 não o foi.

Em alusão a essa periodicidade do tricentésimo sexagésimo sexto dia, inventou-se, no Brasil, uma locução, desusada noutras nações lusófonas – poeta bissexto/escritor bissexto.

A palavra bissexto, bemcomootermo bissêxtil, de há muito deixaram de ser neologismos, pois dicionarizados em 1946. Tencionam, então, conotar o estado daquele, particularmente do poeta, dedicado excepcionalmente à literatura, fazendo poucos versos, o que sugere se evocar, em razão dessa escassez de produção, o dia bissexto de fevereiro (29) e os anos bissêxteis.

Ocorre, exempli gratia, com EUCLIDES Rodrigues Pimenta DA CUNHA, celebrado autor nacional das letras, no terreno social, bem como nas áreas histórica e política. O Autor fluminense produziu extraordinárias obras nestas fertílimas searas, internacionalmente conhecidas e acatadas, como, nestes quatro exemplos, Peru versus Bolívia, Contrastes e Confrontos, À Margem da História e o admirável Os Sertões, além doutras de fecunda inspiração e lúcidas ilações.

Euclides da Cunha (*Cantagalo-RJ, 20.01.1866 ; + Rio de Janeiro, 15.08.1909) achou de escrever, em meio às produções do seu gênero, o Soneto sequente, intitulado Dedicatória, que extraí de Os mais Belos Sonetos Brasileiros, livro de Edgard Resende (Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1945):

Se acaso uma alma se fotografasse,/De sorte que nos mesmos negativos/A mesma luz pusesse em traços vivos/O nosso coração e a nossa face …

E os nossos ideais, e os mais cativos/De nossos sonhos … se a emoção que nasce/Em nós também nas chapas se gravasse/Mesmo em ligeiros traços fugitivos …

Amigo! Tu terias com certeza/A mais completa e insólita surpresa/Notando – deste grupo bem no meio

Que o mais belo, o mais forte e o mais ardente/Destes sujeitos é precisamente/O mais triste, o mais pálido e o mais feio.

Muitos dos literatos nacionais fizeram versos assim, bissextamente, conforme disse, certa vez, o intelectual-dentista Ivan César a respeito de meu amicíssimo Antônio Girão Barroso (o Toinho, meu irmão – como o chamava o Magdaleno), “o único poeta dispensado de fazer poesia”. Há alguns livros, especialmente de sonetos (duas estrofes de quatro versos = quartetos; e duas de três = tercetos ou trísticos), enfeixando a produção de poetas bissextos, o mais importante dos quais, pela sua contemporaneidade, é a Antologia dos Poetas Bissextos Contemporâneos, organizada por MANUEL Carneiro de Sousa BANDEIRA Filho.

A produtiva industriosidade neológica brasileira – cearense, nomeadamente – já se serve de estender mais ainda o alcance de bissexto, de maneira que se diz, progressivamente, economista bissexto, administrador bissexto, articulista bissexto advogado, orador, comentarista e até bebedor bissexto; tudo isto sem remissão a fevereiro como o mês em que, por motivo óbvio – de acordo com a invencionice moleque do cearense – a mulher fala menos …

Não é o que ocorre, porém, no Brasil. com os “lavajatos”, que, infelizmente, não são bissextos…

Edital para o processo seletivo dos membros da Diretoria da ACLP para o biênio 2020/2022

A ACADEMIA CEARENSE DA LINGUA PORTUGUESA,  representada pelo Presidente Sebastião Teoberto Mourão Landim, atendendo ao disposto em seu ESTATUTO, artigos 16 e 19, e o estabelecido nas normas REGIMENTAIS, especialmente nos artigos 55 e 56, abre inscrição para o processo eletivo dos membros da Diretoria para o biênio 2020/2022, no dia 28 de fevereiro, de 2020, conforme orientações a seguir:

CAPÍTULO IX
Do processo eletivo para a Diretoria

Art. 55. A Assembleia Geral para eleição de nova Diretoria para o mandato de 2 (dois anos) será realizada no mês de fevereiro em data marcada com, pelo menos, um mês de antecedência, pelo Presidente, o qual nomeará uma Comissão Eleitoral composta por 3 (três) associados efetivos.

§ 1º – As inscrições das chapas para concorrerem à Diretoria encerram-se 10 (dez) dias antes da data marcada para a eleição, conforme edital previamente divulgado na página eletrônica da ACLP.

§ 2º – No caso de carência de Associado Efetivo em pleno gozo de seus direitos para preenchimento da chapa, poderá, excepcionalmente, ser realizada eleição para a Diretoria em 2 (dois) turnos em datas diferentes, contanto que no primeiro turno haja preenchimento dos seguintes cargos: Presidente, Primeiro-vice-presidente, Primeiro-secretário e Primeiro-tesoureiro.

§ 3º – Os demais cargos deverão ser preenchidos em eleição de segundo turno, obedecendo aos mesmos trâmites do processo eletivo em data marcada pelo Presidente eleito, não devendo ultrapassar a 30 (trinta) dias do primeiro turno.

§ 4º – Será vitoriosa a chapa que obtiver, no mínimo, 50% mais um dos votos dos acadêmicos votantes.

§ 5º – Após a assinatura da ata de eleição, as cédulas de votação serão incineradas, não cabendo mais recursos quanto ao resultado.

Art. 56. O voto pode ser sufragado pessoalmente ou por escrito, enviado em envelope lacrado, via correio ou por terceiro, desde que seja mantido o sigilo, constando nele a identificação do associado votante ausente, porém em dia com a tesouraria da ACLP.

§ 1º – Só terá direito a candidatar-se a cargo da Diretoria da ACLP o associado efetivo que estiver em dia com a Tesouraria até o mês anterior ao da eleição e com frequência mínima de 50% (cinquenta por cento) nas sessões dos 12 (doze) meses anteriores.

§ 2º – Após completar 80 (oitenta) anos, o Acadêmico Efetivo poderá votar e ser votado, não lhe sendo mais exigidos os quesitos referentes à frequência às reuniões e ao pagamento das mensalidades.

Fortaleza, 20 de janeiro de 2020.

Sebastião Teoberto Mourão Landim
Presidente da ACLP