Que sonho curto, camaradas!

RITACY DE AZEVEDO TELES, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 23

Surpreendi-me quando abri o portão. As pessoas que vi não eram os amigos brilhantes que eu esperava para o aniversário do meu primo nem os dois jornalistas que registrariam o evento nas redes sociais. Eram quatro desconhecidos: um casal e duas crianças. Eram esquálidos e pareciam sentir profunda dor e vergonha. Vinham portando sacos e restos de comida e já cheiravam mal. Talvez tivessem caminhado dias. A princípio, quis lhes dar água e algum alimento, mas eles me despertaram uma responsabilidade muito maior que essa, e chamei mamãe para rogar-lhe que os acolhesse.

Depois do aniversário, do qual se mantiveram distantes, chamei a mulher. Ela me revelou que haviam saído de um sítio após perder as duas vacas, o boi e algumas ovelhas. Disse que não havia água alguma quando deixaram sua região e que, após andarem cerca de cem quilômetros, uma das crianças passara a sentir náuseas e febre. Fora estranho, pois não gripara nem tivera desarranjo, e o fato é que lá ficara, em cova rasa, com cruz de pau seco. Foi aí, deixando emergir algo recôndito no ser e normalmente preguiçoso, um resquício de bondade, que resolvi fazer minha aquela família. Dei-lhe um espaço em um quarto do quintal, consegui emprego para o pai e para a mãe e apadrinhei a garota.

Hoje, vinte anos depois de tudo, estamos reunidos em comemoração. O rapaz comprou um pequeno sítio para os pais, que estão voltando às suas raízes campestres. Vão, porém, sozinhos. O filho tem atividades na cidade, pois é engenheiro e cuida de obras na orla marítima. A moça também não pode acompanhá-los: é a única cardiologista do lugar, há muitos pacientes que necessitam de sua presença e o interior nada lhe oferece.

Hoje é dia de chorarmos, pois sentiremos saudades de todos. O casal partirá, e os dois filhos, apesar de estarem por perto, casarse-ão em breve. Todos foram importantes na minha vida e na de minha família, pois nos fizeram ver que temos responsabilidades uns pelos outros, que a vida só é plena se fizermos algo que nos sublime a humanidade. Você gostou dessa história de destinos, leitor? Linda, não?! Lindo mesmo seria se esse sonho de bondade se realizasse mais que uma vez em cem, não é mesmo?! E lindo, lindíssimo, no exagero maior do superlativo, seria se, nos anseios da mediocridade social, sempre mascarada por discursos rasos, prescindíssemos das forminhas finais de chantilly, hem?!

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