Reencontro benéfico

Vianney Mesquita*

Na adversidade é que se prova a fidelidade dos amigos. (Nicolau MAQUIAVEL).

Na semana passada, dirigi-me à Av. Virgílio Távora, 999 – Fortaleza, a fim de bacorejar as temáticas de algumas produções librárias mais novas, por via da leitura de suas guarnições, em particular, aquelas relativas a apreciações literárias, notadamente obras de autores cearenses.

Ao escalar o derradeiro degrau daquela culta escada da famosa Livraria Cultura, deparei no cafezinho o meu amigo Prof. Dr. Francisco Auto Filho, da Universidade Estadual do Ceará, a quem há muito não via. Com ele, tampouco, mantinha qualquer conversa, sequer por telefone ou correio eletrônico, palestra que me fazia bastante falta, pois estivera, então, abstido de suas tiradas racionais e doutrinações elevadamente pedagógicas, o que aprecio demasiado, máxime no terreno do comportamento cidadão no âmbito da vida em sociedade.

Intelectual de renome nacional, aggiornato ad oggi em relação a todas as modalidades informacionais, não apenas de Filosofia – substância que cultiva e transmite na Universidade – ele assim procede, pois intui que o saber parcialmente ordenado não é estanque, não é feito em pedaços e “pacotes”,  distinguindo, pois, o fato de inexistir saber particular  (Non datur scientia de individuo), como já se descortinava  no âmbito da Escolástica de Alberto Magno e tantos outros sábios, ainda no momento bastante respeitada naquilo que o tempo, impondo naturalmente  outros pensares, não houve por bem falsear e desmanchar.

Por exatamente compreender que o todo individualizado é inexprimível (Omne individuum ineffabile), esse docente, filósofo, jornalista e erudito cearense demanda, nos livros e em todos os meios de propagação massiva – bem assim nas relações estabelecidas com pessoas e circunstâncias do trato social e intelectivo – apropriar-se do que é surgente em matéria de conhecimento, seja de que vertente for, a fim de cada vez mais se aparelhar para transferi-los a alunos e pares da Academia, no seu mister professoral de movimento contínuo e edificante.

De tal maneira, esse modo de proceder de Auto Filho durante o tempo em que não nos avistámos foi tão efetivo que, pela própria conversa, notei com nitidez seus engrandecidos aprestos intelectuais, pois feriu temas, conquanto antigos, adornados com adendos provenientes de suas mais recentes observações e descodificações dos novos argumentos então divisados, de sorte a se ajuntar para cada vez mais enriquecer o conhecimento.

Cumpre-me exprimir a ideia de que, sobre ter sido de bastante agrado esse encontro, cresceu a admiração por sua pessoa, em razão, exatamente, de haver ocorrido uma mudança, para melhor, num diálogo diferente, fato que me faz evocar  a ideação expressa pelo sábio da Escola Jônica, Heráclito de Éfeso (540-480 a.t.p.)**, para quem um homem não pode se banhar por duas vezes no mesmo rio, porquanto, no segundo ensejo, será outro o homem e outro será também o rio.

De tal modo, essa rentreé amistosa em mim redundou benéfica, ao operar imenso contentamento. Muito confortante é expressar-me assim…

* João VIANNEY Campos de MESQUITA é Professor Adjunto da Universidade Federal do Ceará. Acadêmico Titular das Academias Cearense da Língua Portuguesa e Cearense de Literatura e Jornalismo. Escritor e jornalista. Árcade fundador da Arcádia Nova Palmaciana. Membro do Conselho Curador da Fundação Cearense de Pesquisa e Cultura – FCPC/UFC.

** Em razão de a ciência ser naturalmente laica, deixou-se de usar a expressão “a.C”. = antes de Cristo), passando-se a aplicar “a.t.p.” = antes do tempo presente. A meu turno, porém, jamais deixarei de amá-lO e nEle confiar.

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