REMÉDIO PARA BARATA

(Periplaneta americana)

Vianney Mesquita

Em determinada ocasião, aqui em Fortaleza, fui a um depósito de material de construção, em verdade um empório de mercadorias não comestíveis, em razão da enorme variedade de produtos, e pedi a um dos caixeiros (palavra fora de moda = balconista) algum REMÉDIO PARA BARATAS.

Incontinenti, ele, alegre e zombeteiro, me respondeu, indagando: – “Então, as bichinha do senhor tão doente?” (sic).

A pergunta produziu nas demais pessoas, de fora e dentro do balcão, um jorro de riso, pela graça realmente originada, em decorrência da falta de conhecimento – dele e de seus circunstantes – a respeito das características homonímicas e polissêmicas de termos e dicções do léxico português, fato, aliás, a tornar este código glossológico uma língua admiravelmente literária.

A surpresa e o aborrecimento, entretanto, bem depois, se dissolveram, quando cuidei do fato de aqueles compradores e caixeiros da loja constituírem um conjunto desprovido de maiores haveres informativos, com escolaridade insuficiente para o alcance daquilo por mim retrucado, ao explicar ao protagonista do chiste, evidentemente com termos diversos dos expressos à frente, o fato de ele não ter razão, pois REMÉDIO possui diversas acepções, aplicáveis na dependência de certas necessidades e circunstâncias.

Impossível é dizer, todavia, não me haja o motejo causado enfado, conforme adiantei, notadamente pelo fato de haver ocorrido publicamente. Passemos a refletir, contudo, tendo por mote este sucesso passado no depósito, a respeito de algumas significações do termo “remédio”.

Antônio Houaiss e Mauro de Salles Villar (Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. São Paulo: Objetiva, 2005) colheram no Fichário do Índice do Vocabulário Português Medieval, de Antônio Geraldo da Cunha (Fundação Casa de Rui Barbosa. Rio de Janeiro, 1986), o ano de1390 como o de registro do vocábulo REMÉDIO, palavra polissêmica por excelência, consoante pode ser divisado à frente.

Cumpre informar, por oportuno, o significado, em Lexicologia e Linguística, do termo polissemia, hic est, a propriedade de certas palavras e expressões denotarem bem mais de um sentido, como  ocorrente em:

–  manga –1 de camisa; 2 de farol; 3 fruta (propriedade do fruto comestível); 4 local de pastagem de animais; 5 verbo mangar; etc.;

 

– quarto – 1 posição de número quatro numa sequência; 2 correspondente a cada uma das partes da divisão de um todo (um quarto de litro); 3 aposento ou divisão da casa onde se dorme (alcova, dormitório); 4 partes laterais da região da coxa (meia bunda) etc.

– prato – 1 vasilha; 2 comida; 3 iguaria; 4 de balança; 4 de banda de música; 5 manzape; 6 guloseima, 7 notícia em voga (prato do dia) etc.

Sob o prisma da Gramática, a polissemia é fenômeno ordinário nas línguas naturais, sendo incontáveis os vocábulos expressos por seu intermédio. É diferente de homonimia, por ser a mesma palavra e não unidades de ideias com procedências diversas, as quais convergiram foneticamente.

São causas da polissemia, apontadas por Houaiss e Villar (Opus citatum):

–  empregos figurados, por metáfora ou metonímia, extensão de sentido, analogia etc; e

–  empréstimo de acepção expressa pela palavra noutra língua.

Seu étimo é do francês polysémie, procedente do grego polúsëmos, os on, – “com muitos sentidos” (grego poli- = numeroso; sema- = ato, sinal, marca + o sufixo ia).

REMÉDIO é, pois, como exprimi, noutros torneios, para o caixeiro do depósito à Avenida Jovita Feitosa, aqui na Capital, em acepção estendida, tudo aquilo – substância ou recurso – empregado não somente para combater uma doença ou fazer cessar uma dor, mas também expediente para amatar sofrimentos morais, atenuar os males da vida, eliminar uma inconveniência, um mal, um transtorno.

REMÉDIO configura um recurso, uma solução; instrumento de proteção, para auxilio ou remendo de falha ou defeito. É emenda, corretivo, “regulagem”, retificação.

Como vocábulo polissêmico por excelência, por exemplo, no campo jurídico, refere-se a uma providência para reparar um dano ou estabelecer relação de direito interrompida (“REMÉDIO jurídico”). A Penitência ou Confissão, terceiro Mandamento da Igreja Católica, é “REMÉDIO” religioso; no mesmo passo, a seção do divã do psicanalista representa “REMÉDIO” psicológico.

Na sua ampla variação sinonímica, REMÉDIO” é, ainda, droga, emenda, expediente, forma, jeito, maneira, medicamento, meizinha, curativo, penso, modo, recusa, saída, salvatório.

Por qual pretexto, então, remédio deixaria de ser veneno para acabar com as minhas saudáveis e serelepes “Periplanetae americanae” de estimação?

OBS. Peço atenção para o fato de eu não haver empregado vez nenhuma a partícula “quê”, para render homenagem ao professor. e nosso acadêmico, Itamar Espíndola, o qual era “quêfobo

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