ACADEMIA CEARENSE DA
LíNGUA PORTUGUESA

dulcisonam et canoram linguam cano

Soneto encadeado

João Vianney Mesquita Mesquita

Vianney Mesquita, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa, Cadeira 37

Soneto Encadeado

PSEUDOCONHECIMENTO

                                           Vianney Mesquita*

A Ciência não passa do bom senso exercitado e organizado.

                                                                             (Thomas Huxley).

RESUMO

Demanda facilitar a leitura do poema expresso no final do texto, recorrendo ao conhecimento geral obtido em estabelecimentos formais de ensino médio e universitário lato e stricto sensu, sem nomear nenhum autor, por desnecessário. Indicam-se as diversas escalas do saber, com suporte, principalmente, nas lições do filósofo das ciências Karl Raimund Popper, ao se reportar à ideia de Platão, conformada na Teoria dos Mundos.

Palavras-chave: Saber popular. Conhecimento Científico. Três Mundos, de Popper.  

ABSTRACT

It seeks to facilitate the reading of the poem below, resorting to general knowledge obtained in formal high school and university lato and stricto sensu establishments, without particularizing any author, for being unnecessary. Several scales of knowledge are indicated, with support, mainly, in the lessons of the philosopher of science Karl Raimund Popper, when referring to Platos’s Theory of Worlds.

Kew words: Know Popular. Scientific Knowledge. Three Worlds by K. R. Popper.

1 Senso Comum

      No tentame de facilitar a leitura e a decodificação do poema-título desses comentários, procedemos a lábeis interpretações atinentes aos diversos saberes, com suporte no nosso semiaparelhamento didático-histórico, haurido em estudos acadêmicos formais, em sala de aula e leituras plurais de domínio público, de sorte que, para esta escrita, não nos louvamos em quaisquer peças autorais a que legalmente devamos referência.

      Aparentemente, talvez, resulte sobejo exprimir, para audiências tão bem aparelhadas como soem ser nossos leitores – porém não perfaz nenhum ato transgressor – o fato de que o senso comum ou communis opinio significa a maneira de se entender as coisas, denotando ideações comumente acatadas pelo maior contingente de pessoas.

      O modelo retrata o conhecimento granjeado pelo ser humano, com amparo em observações do seu ambiente em todos os tempos. O senso geral – assim também divisado – assinala-se por conhecimentos rotineiros (empíricos) durante a vida inteira de uma pessoa, que, a seu turno, transmite essas ideias, recebidas de seus antecessores, aos próprios sucessores, de geração em geração, as quais comunicam à sua descendência e, deste modo, sucessivamente.

Dito saber (componente do Mundo 1, pressentido pelo filósofo da Ciência, o austríaco Karl Raimund Popper, com suporte na Teoria dos Mundos, de Platão) não está assentado em metodologias nem inferências oriundas da ciência – o chamado saber ordenado – mas é adquirido na assimilação de informações e saberes procedentes da vida cotidiana, sendo, entretanto, fonte de procura da ciência, presidida pelo método.

2 O Senso Crítico

      Convém adiantar, por ensejado, a noção de que o senso comum difere daquele de teor crítico, este assentado no pensamento reflexivo e na demanda de caráter científico por parte dos pesquisadores.

      Como manancial para a ciência, a qual, também, normalmente, não é definitiva na maioria dos seus sub-ramos, o saber geral o é apenas por enquanto, nunc enim, passível de ser desacreditado pela intervenção de um fato novo advindo das investigações procedidas pelo ordenamento epistemológico, eo ipso, transitadas pela metodologia no âmbito dos ditames da Filosofia das Ciências, da Epistemologia.

      Feito reflexão acerca do real latente (Mundo 1)então, o saber comum é transferível para o estádio do Mundo 2 popperiano, pois, nesse patim, já experimenta curso a concepção de um juízo, a conceição de um discernimento dotado de circunstâncias históricas.

      A communis opinio resulta, pois, assistemática, porquanto despossuída de organização prévia, sem amparo em postulados, teorias, leis e outros segmentos de procura científica lógicos, congruentes, sem conservar ligações comunicativas. Estas circunstâncias, de que o senso comum é órfão, pertencem, por conseguinte, ao conhecimento sistemático (já postado no Mundo 2 popperiano), constituinte de base da ciência. Esta, por sua vez, possui (ou não) comprovados, por via de uma conjunção de experimentos e exames sob metodologias, seus sistemas (ou teorias), proposições e suposições prováveis – estas, as hipóteses.

3 O Estatuto de Ciência

      Quando, então, o resultado de um pensamento ou da indústria etnológica de cada um assume configuração de peça socializada, tecida em mensagem massivamente propagada, passa a ter existência própria, como um produto objetivo e excogitado pelo próprio ensaísta-pesquisador, sujeito, portanto, a uma análise crítica, porém, passível de defeitos, suscetível, por conseguinte, de revisões, adendos, consertos e aperfeiçoamentos, recriações, enfim, a ciência, sujeita a esses percalços; bem menos o são, todavia, as ditas exatas, como, verbi gratia, os conhecimentos matemáticos. São as chamadas Coisas Imperfeitas, as quais habitam já o Mundo 3 de Karl Raimund Popper.

4 A Teoria dos Três Mundos 

(exageradamente sucinta)

Karl Raimund Popper, austríaco e naturalizado inglês (Viena, 28.07.1902 – Kenley – UK, 17.09.1974), desenvolveu esse sistema, na esteira da ideação platoniana da Teoria dos Mundos, com o escopo de esclarecer a relação corpo-mente. Então, neste passo, sem dever se examinar com profundidade os meandros desse sistema – e até pelo fato de a expressa teoria não haver logrado fazer com que se entenda na totalidade esse vínculo – resulta a ideia de que o Mundo 1 é o locus das ocorrências físicas, das substâncias, dos campos e do que há de material no Globo, onde residem, também, os entendimentos do senso comum ou a mais de uma vez aqui referida communis opinio.

      Na sequência do Mundo 2, descansam as ocorrências reflexivas, as práticas conscientes, subordinadas aos cinco sentidos (visão, audição, tato, olfato e gosto). Aí está, principalmente, a cabeça, o cérebro, afirmando-se toda a consciência, evidentemente, humana, onde se aloca, para o objetivo dessas linhas, o conhecimento sistemático, por assim exprimir, o prelúdio do saber de ciência, a “pré-ciência”. Vem o terceiro estádio, configurado no Mundo 3, das criações objetivas do cérebro, incluindo os feitos estáveis das realizações do ser humano, como depuração dos dois mundos anteriores. Aqui se dispõe a atividade de procura e descoberta dos fatos científicos – o Universo Popperiano Três.

      Com este apressado, incompleto e talvez desasado comentário, tenta-se facilitar ao leitor a decodificação do soneto à frente, com rimas encadeadas – o que concede mais estesia aos pés consoados – o qual constitui um dos recheios de produtos da mente, como expressão linguística aposta no derradeiro estádio da (mal) escoliada teoria de Popper.

PSEUDOCONHECIMENTO

Fantasias, mentiras sob lógicas,
Isagógicas sobre as audiências
Pseudociências fenomenológicas,
Morfológicas desobediências.

Conheceres fingidos das potências,
Carências antropossociológicas,
Filológicas falsas congruências,
São coerências amplamente alógicas.

A tal grade, v.g., estão avessos
Os adereços da Ciência Exata,
O cimo, a nata do saber mundano.

E, neste plano, saltam os endereços,
Sem desapreço nem quaestio (vexata),
N’ata do Mundo 3 popperiano.

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