Três plurais a serem explicados: alto-falantes, mapas-múndi e Ave-Marias

Prof. Raimundo Evaristo, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 40.

Há substantivos compostos que, desde muito tempo, têm despertado a atenção de estudiosos, em virtude de certas peculiaridades ausentes da maior parte dos demais, notadamente no âmbito da flexão de número. Isso é o que evidencia no caso de substantivos como alto-falante, mapa-múndi e ave-maria.

Conforme o Novíssimo CALDAS AULETE, Dicionário contemporâneo da Língua Portuguesa, edição de 2014, e o Dicionário de Língua Portuguesa, de Cândido de Figueiredo, 14ª edição, os aludidos substantivos têm, respectivamente, no plural, as formas alto-falantes, mapas-mundi e ave-marias. As gramáticas tradicionais também os registram dessa maneira.

Diante disso, norteado por uma visão sincrônica, o estudante mais interessado em inteirar-se acerca dos motivos de tais flexões vai deparar-se de uma série de duvidas, que, dada a sua complexidade, requer dele um estudo mais aprofundado.

A primeira delas diz respeito à não flexão do suposto adjetivo alto; a segunda vincula-se à ausência de flexão do nome “mundi” e à grafia deste com um “i”, final; a terceira refere-se à falta de flexão do nome “ave”.

Pelo que se observa, esses aspectos de cunho linguístico ventilados suscitarão explicações calcadas na história da língua.

Por outro lado, antes de tecer qualquer comentário sobre essas dúvidas, convém ressaltar que já houve quem propusesse a grafia alti-falante, que certamente, devido ao último acordo, passaria a ser sem a presença do hífen, e, tanto num quanto noutro caso, esse composto flexionaria apenas o segundo elemento. Entretanto, essa forma não foi aceita pela maioria dos gramáticos ou filólogos, um dos quais opina que “alti” com “i” só se usa nos compostos que mantêm a fisionomia latina: altiloquente, alticornígero e altíssimo.

No tocante à flexão numérica de alto-falante, para explicar a ausência desta no primeiro componente, faz-se necessário, de antemão, que seja elucidado o caso do nome “falante”, considerado verbo num dicionário atual.

Esse ponto de vista, sobre o qual nos deteremos, acarreta mais dúvida ao estudioso que segue unicamente os parâmetros sincrônicos da língua, uma vez que, ao examinar o sistema verbal da Língua Portuguesa, não encontrará nenhuma forma flexional com a forma –NTE. Acontece que esse elemento faz parte do particípio presente latino, o qual, na evolução da Língua Portuguesa, se firmou como substantivo ou adjetivo. Cumpre, lembrar que, no Latim, havia três particípios: o passado, o presente e o futuro, o segundo dos quais formou, no Português, não só nomes com o sufixo indicador de agente –NTE: estudante, emigrante, navegante, pedinte; mas também algumas preposições acidentais: durante, mediante, não obstante, salvante (salvo e exceto) e tirante (exceto). No Latim, esse particípio concorda com o substantivo a que se refere em gênero, número e caso, sendo completamente declinável como nome da terceira declinação e corresponde, geralmente, a uma oração subordinada relativa:

No substantivo composto alto-falante, visto que o nome falante corresponde a um particípio presente (=forma adjetiva do verbo), o adjetivo alto, mediante o processo da conversão, se adverbializa, razão pela qual não se flexiona no referido composto, o que configura o plural alto-falantes.

Quanto ao plural mapas-múndi, pode-se verificar que a forma mundi se trata do genitivo singular de mundus, nome da 2ª declinação latina. O caso genitivo, no qual ele se encontra, tem o valor da locução adjetiva “do mundo”, que, visto ter uma preposição interna, rejeita o plural, o que também ocorre com os substantivos compostos cujo segundo componente tem preposição explícita ou implícita, exempli gratia: águas-de-colônia, salários-família.

No tocante ao plural ave-marias, é bom ressaltar que a palavra ave, no idioma de Cícero, era uma interjeição que os gladiadores pronunciavam diante do imperador, antes da luta, no Circo de Roma: Ave, Caesar, morituri te salutant (“Aqueles que vão morrer te saúdam”). Como é sabido, a interjeição é uma das quatro classes invariáveis, daí por que o vocábulo ave, que significa salve e era usado por aqueles que saudavam alguma autoridade, conservou a característica da invariabilidade na Língua Portuguesa, o que justifica a sua não flexão em ave-marias.

Pelo que se evidencia, a abordagem sincrônica leva o usuário da língua apenas a memorizar a flexão numérica de tais substantivos compostos, o que implica, a nosso ver, a necessidade de uma abordagem pautada na história da língua como propusemos no inicio dessa exposição.

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