Triplo emprego de um advérbio (para amatar uma dúvida)

VIANNEY MESQUITA, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 37

Só o influxo da arte comunica
durabilidade à escrita; somente ele marmoriza
o papel e transforma a pena em escopro.

(Rui Barbosa).

Atilado consulente, leitor expedito e bem aprestado literariamente – destes que qualquer autor aprecia ter como público e a quem manifestamente agradeço – divisou suposta impropriedade em passagem de agricultura minha, no texto A Respeito dos Críticos, expresso a jeito de prolegômenos no meu livro Arquiteto a Posteriori (Fortaleza: Imprensa Universitária da UFC, 2014), depois reproduzido noutros media com algumas modificações, mercê da energia da Língua e das ocorrências históricas.

Ali, registei o fato de que […] optamos por não escrever a respeito de trabalhos de má qualidade, nem tomar de assalto os bons escritos, pespegando-lhes, ADREDEMENTE, defeitos nestes não contidos […], móvel da resposta agora oferecida com a mais vera satisfação àqueles que ostentam desconfiança acerca de pretensa impropriedade ou até armazenam certeza de sua ocorrência, a qual, com esta réplica cidadã, certamente logro desmontar.

Os advérbios e expressões modais que nomeiam este artigo são aplicados (corretamente) com o mesmo sentido, no Brasil quanto em Portugal, ao curso de muito tempo. Assim me refiro esteado nos estudos procedidos nos anos 1960, quando estudante secundarista, à lucerna cintilante do Mestre Hélio de Sousa Melo [tio do meu paradigma de docente, Myrson Melo Lima, e parente perto do meu estimado amigo, o causídico Dr. Reginaldo Vasconcelos], de quem ouvi a dicção adredemente pela primeira vez, pois, com outro dos sensos humanos – a visão – a depreendera já da leitura de Lições Práticas de Gramática Portuguesa, de Gaspar de Freitas, bem como de Aída Costa, salvo escorrego de lembrança, no Português – Segunda Série Ginasial.

De lá para cá, uma vez por outra, emprego o advérbio completado com mente, ao modo como procedeu esse que ora me vai certificar,  João Clímaco Bezerra (a quem à frente tornarei a referir), lavrense, como Dimas Macedo e tantos outros expoentes do conhecimento humanístico de ordem vária, um intelectual de acendrada cultura material e imaterial, escritor de muitas obras apreciadas no País, engrandecido pelos aplausos, sem contabilizar outros, do mestre de Osterreich naturalizado brasileiro, Otto Maria Carpeaux, e do alagoano Graciliano Ramos de Oliveira.

Louvo-me, neste passo, nos depósitos do memorando professor doutor José Alves Fernandes (Aracoiaba, 21.10.1930 – Fortaleza, 17.05.2012), nosso colega aqui na ACLJ, mestre de inconfinados recursos professorais, lexicólogo e enciclopedista de Português, internacionalmente respeitado pela propriedade de seus escrutínios, de quem armazeno a honra de haver sido secretário, quando de sua passagem pela Presidência da Academia Cearense da Língua Portuguesa.

Fernandes, no Dicionário de Formas e Construções Opcionais da Língua Portuguesa (UFC-INEP, 2000), reporta-se à unidade de ideia adrede (tanto ê como é), a qual é a única reconhecida pelo mencionado leitor que intenta submeter a xeque o formato do advérbio adredemente, a que recorri porque o entendi consentâneo.  Ao demonstrar as opções de referência oferecidas pelo exuberante recheio glossológico português, na página 36 do seu Dicionário, esse Acadêmico traz à colação um passadiço de Abdias, das Alterosas, Cyro Versiani dos Anjos (Montes Claros, 05.10.1906 – Rio de Janeiro, 04.08.1994), no qual o autor de A Menina do Sobrado assim expressa: “O Colégio das ursulinas é um estabelecimento de luxo, fundado ADREDE (imprimi realce) para receber moças da alta burguesia.” (FERNANDES, apud DOS ANJOS, Abdias, 4. ed., p.2).

Poderia até me haver eximido de alvitrar exemplo deste emprego, significativo da ideia de prédio luxuoso, “fundado de caso pensado”, “de estudo”, “estudadamente”, porquanto é trivial esse aproveitamento, comum nas diversas manifestações escritas. Muita vez, então, os leitores desconfirmam e censuram, desarrazoadamente, o escriba que aplica outras modalidades de tornear (como sucedeu com esse advérbio do qual me vali no Arquiteto a posteriori), conforme estão nas versões adiante expressas, exatamente pelo fato de as desconhecerem. Ignoti nulla cupido (1) = Unquam docere te quae nescis.

Relativamente à segunda usança – DE ADREDE – o mais insigne aracoiabense (com certeza) se louva na inteligência do gramático e escritor naturalista, também procedente das Gerais, Júlio César Ribeiro Vaughan (Sabará, 10.04.1845 – Santos, 01.11.1890), em passagem do romance histórico do tempo do Brasil-Colônia, intitulado Padre Belchior de Pontes, no qual esse literato se exprime assim: “Perto já das primeiras casas pararam e, muito DE ADREDE (impus destaque) para se fazerem notados, entraram a cochilar”. (FERNANDES, apud RIBEIRO, Júlio. Op. Cit, 3 ed., p. 270).

No seu Dicionário, aduz José Alves Fernandes, em igual romance, página 303, outra inclusão do DE ADREDE divisada no Autor de A Carne, cuja significação é absolutamente a mesma de ADREDE e ADREDEMENTE, porém, todas denotativas dos recursos ofertados pela Codificação Lusitana, a fim de o escritor não se fazer exibir como repetitivo e maçante, circunstância useira em provocar o abandono, por parte do bom leitor, da obra sob sua apreciação e submetida, então, ao governo de seu juízo. Assim reproduz Fernandes: “As primeiras casas do arraial estavam atopetadas de Paulistas: pelas paredes DE ADREDE (incluí versais) esburacadas surgiam centenares de canos de espingardas”.

Como termo destas notações, retorno – com vistas a desconstituí-lo – ao pomo da inocente discórdia a respeito da expressão adverbial adredemente, questionada pelo meu desempenhado ledor, o qual exprimiu a opinião de que, sendo adrede já advérbio de modo, seria sobeja a terminação mente.

Tomo tenência, por primeiro, na opinião de Francisco Fernandes, mais um tuxaua civilizado na Língua, ao lecionar a todos o fato de essa craveira adverbial repousar sobre o paradigma de (por) acinte – acintemente (FERNANDES, Francisco. Dicionário de Sinônimos e Antônimos da Língua Portuguesa, p. 37), importando também informar a noção de que, consoante o etnólogo e arquiteto Antônio Geraldo da Cunha, a palavra adrede, com registo no século XIV, tem origem controversa.

A asserção do notável filólogo e lexicógrafo alteroso há instantes mencionado (também nasceu em Minas Gerais – Arcos, 1905), Francisco Fernandes, autor do conhecido Dicionário de Verbos e Regimes, remanesce corroborada por José Alves Fernandes, ao ter como fonte de fé o cultíssimo jornalista, advogado e escritor alencarino, natural de Lavras da Mangabeira, João Clímaco Bezerra (30.03.1913 – RJ, 04.02.2006), referido linhas atrás. Este, no seu Não há estrelas no céu (p. 17), utilizou a configuração adverbial cunhada sobre o paradigma de “acintemente”, o mesmo que apliquei no Arquiteto a posteriori, objeto desde comentário e questionado pelo meu consulente, assim: “Gostava de arremedá-lo, colocando os óculos de minha tia e o chapéu do papai, ADREDEMENTE (empreguei saliência) acrescidos dos cordões. (In: FERNANDES, José Alves. Op. Cit. IDEM, 2000).

Entendo ter sido o suficiente. “Sapateiro, jamais suba além das sandálias” (Ne sutor ultra crepidam) – aconselha Plínio, O Antigo.

 

  • Aforismo de Públio Ovídio Nasão, significativo da ideia de que Não se intente aquilo que não se conhece = Não ensine aquilo que não sabe.
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