Um Passeio pela Rua da Saudade

Giselda Medeiros

Uma das surpresas mais agradáveis, dessas que o cotidiano nos traz inesperadamente, foi travar conhecimento com o poeta Eduardo Fontes que, num gesto de cortesia, ofertou-nos seu mais recente trabalho Rua da Saudade (Fortaleza: Edições UFC, 1998).

 

Confessamos que, já a partir do título (saudosista por sinal), interessamo-nos, de pronto, em visitar essa rua que não consta dos catálogos, porque é uma rua particular, aonde só irão aqueles cuja sensibilidade lhes desvende os caminhos que levam a ela.

E qual não foi nossa emoção ao adentrar essa rua mágica, cujos cantos guardam o silêncio de velhas lembranças acesas a derramarem-se ao longo das pegadas de seus transeuntes que, embevecidos, vão, mais e mais, embrenhando-se por suas esquinas e becos de fluidas recordações, qual se fossem indo cirandando, cirandando, como nos tempos de infância, a ouvir o vendedor de picolés, com sua caixa de madeira, apregoando aos quatro ventos: vai picolé de abacate, / de morango / e de chocolate, / de abacaxi, / baunilha / e murici…

Na segunda parte do livro, destaca-se o “Poema a Fortaleza”, em cujos versos o poeta retrata a cidade sob a mira do social, conforme atestam estes versos: Queria conhecer-te, / ó minha cidade, / visitar a pé / tuas favelas, / imiscuir-me nas tuas vielas!… / Conhecer-te a escuridão / das noites, prenhes de solidão, / o lume das “bocas de fumo”, / a trajetória da bala no espaço, / e o reluzir das facas!

O poema “Mulher” destaca-se pelo erotismo, vazado em metáforas bem construídas. Vejamos: “Mulher, ser de / ternura e de desejo! / Em todo canto, / um monte, um vale, / um recanto redondo, /…/.

Em seu estro admirável, o poeta revela sua multividência através de altos vôos de sensibilidade estética, o que lhe confere um lugar entre os bons poetas de sua geração, cuja marca registrada é a simplicidade da linguagem, a objetividade do comunicador profissional, como bem disse o grande Francisco Carvalho.

Na terceira parte do livro, podem ser apreciados poemas do mais fino lavor literário, como “Poesia Emocional”, “A Gota D’Água”, “Velho Pescador”, “Ledo Engano”. Neste último, o poeta faz derramar-se toda a sua carga sentimental, deixando aflorar a frágil condição de ser humano, efêmero, vulnerável e alvo da corrosão do tempo, como fica impressa nestes versos: Hoje, me vejo mais / nos olhos dos meus netos, / do que nos longos caminhos / do amanhã!…

A certeza da morte, esta para cuja chegada devemos estar sempre preparados, mas que nunca estamos, perpassa pelos versos de “A Certeza Final”, conforme o sugerido nestes versos finais: O cerco se fecha / em torno, / sei que vou como gado / para o matadouro.

O tema da transitoriedade da vida também passeia por esta rua e pode-se percebê-lo com mais intensidade nestes versos que se repetem ao longo de todo o poema, intitulado “O Rio que Passa…”: O rio passa, / como a vida, / o rio passa…

Também estão presentes no livro temas de cunho religioso, evocativo e ecológico, além do rico emprego de metáforas, o que faz o leitor perceber as sensações do silêncio das lágrimas, do silêncio das flores e dos gestos e o longo silêncio dos beijos, silêncio estampado nos versos impregnados das vibrações mais sugestivas da subjetividade do poeta.

Assim, pois, é Rua da Saudade, que põe em relevo o sentimento humano em seu contexto existencial e conflituoso, abordando-lhe as emoções e alegrias, as tristezas e comiserações, as perplexidades diante da existência sofrida, evocando, entretanto, um lirismo resultante do choque entre o vivido e o sugerido pelas emoções, para que possamos passear por essa rua onde recendem pelo ar / cheiros caseiros, / de jasmim, / e de rosedá…

Parabéns, portanto, a Eduardo Fontes, este poeta que, menino, à sombra das mangueiras da Gentilândia, sonhava com o pé de romã florindo, tendo na boca o gosto / doce das mangas / e a lição das folhas.

Hoje, amadurecido, mas sem deixar desaparecer a criança travessa que traz consigo, o poeta se serve de sua aguda consciência para, extraindo a argamassa de suas dores, levantar bem alto uma muralha poética, protegendo-se, destarte, das agruras do cotidiano, e, atrás dela, quedar-se a amealhar, em leve quietude, seu maior tesouro, a poesia, toda ela impregnada do perfume sutil e inebriante da saudade, no que ela tem de mais vicejante e catalisador.

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