ACADEMIA CEARENSE
DA LÍNGUA PORTUGUESA

dulcisonam et canoram linguam cano

LER E PRODUZIR TEXTOS CRITICAMENTE

LER E PRODUZIR  TEXTOS CRITICAMENTE

                                                                                           Profa. Gorete Oliveira – Cadeira no. 1

1 ABORDAGENS

1.1 Leitura: ler – compreender – socializar – articular – escrever.

1.2 Produção: organização do pensamento e das ideias.

1.3 Gramática: particularidades gramaticais

Texto    

      A leitura e a escrita são faces dialéticas da linguagem. O que se lê tem que ter sido previamente escrito e o que se escreve é para ser lido. Portanto, o que se depreende de uma leitura é o resultado de atitude e procedimento de escrita de quem o escreveu. Escrever textos é produzir leituras; proceder a leituras é descrever textos.

         Segundo Antônio Carlos Viana e outros (2001, p. 9): “Ninguém chega à escrita sem antes ter passado pela leitura”. Isso é fato. Mas é preciso que se tenha noção da extensão do significado do termo leitura. Ler não é somente identificar ou proferir palavras e frases. É ir sempre muito mais longe que isso. É compreender e depreender a tessitura. Somente assim se pode inferir pela leitura o sentido maior do texto. Sentido este que, muitas vezes, fica à margem da percepção de um expressivo número de leitores. A captação dos sentidos aprofundados exige do leitor o desenvolvimento de uma postura de muita afinidade com o texto. Para se ler bem é preciso ter tanta habilidade quanto para se escrever bem. A leitura e a escrita são atividades intercomplementares e dialogam entre si. Assim, para os mesmos autores: “Lendo textos bem estruturados, podemos apreender os procedimentos linguísticos necessários a uma boa redação” (Idem).

         À primeira leitura, o que se formula é uma ideia superficial daquilo que constitui os impulsos criativos ou informativos do autor do texto. Somente os estágios mais densos têm como fazer surgir a informação seminal. Um desses modos é a busca das palavras nucleares nos segmentos do texto. São nucleares porque em torno delas e com elas outras se articulam, se organizam, e daí é gerada a teia de significados do texto e a construção dos seus sentidos. Essas palavras recebem a denominação conceitual de palavras-chave. Como bem esclarecem os autores acima citados (Ibidem):

As palavras-chave formam um centro de expansão que constitui o alicerce do texto. Tudo deve ajustar-se a elas de forma precisa. A tarefa do leitor é detectá-las, a fim de realizar uma leitura capaz de dar conta da totalidade do texto.

Por adquirir tal importância na arquitetura textual, as palavras-chave normalmente aparecem ao longo de todo o texto das mais variadas formas: repetidas, modificadas, retomadas por sinônimos. Elas pavimentam o caminho da leitura, levando-nos a compreender melhor o texto. Além disso, fornecem a pista para uma leitura reconstrutiva porque nos levam à essência da informação. Após encontrar as palavras-chave de um texto, devemos tentar reescrevê-lo, tomando-as como base. Elas constituem seu esqueleto.

2 A PROPÓSITO DA LEITURA – preparando o bom leitor

         Para se aprender com a leitura, é preciso adotar-se uma visão crítica e não somente uma visão de superfície. É claro que a primeira só pode ser formada a partir da segunda, mas só a segunda é que – uma vez formada – pode gerar um leitor crítico.

         Para isso, deve-se percorrer o texto, adotando-se algumas posturas, que podem ser assim escaladas:

2.1  Lendo o texto. Nesse nível, o mais superficial, ou o mais figurativo, a leitura deve ser feita com o seguinte espírito: ler um texto pressupõe depreender suas informações e apreender o mundo através delas.

         Aqui, já se estimula o pressuposto de que não se lê no vazio, bem como, o de que não será mais isento aquele que lê. Depois da leitura de um texto qualquer, o leitor pode-se perguntar: O que li? O que depreendi? A resposta exige que se faça o caminho de volta para encontrá-la.

         Assim, voltando-se ao texto destinado a esta aula, pode-se fazer um levantamento assim:

  • O que li? Li que:

– leitura e escrita são faces dialéticas da linguagem;

– para se ler, é preciso haver escrita, e a escrita é para ser lida;

– quem lê depreende atitude e procedimento de escrita de quem escreve;

– produzir texto é produzir leitura; ler é descrever texto;

– não se chega à escrita sem passar pela leitura;

– os sentidos dos textos não estão exatamente na superfície;

– o bom leitor (ou seja, o leitor crítico) é suscetível de ser um bom redator (ou seja, de escrever textos críticos);

– todo texto pressupõe a existência de palavras nucleares ou chaves;

– reorganizando-se as chaves, reescreve-se o texto.

OBSERVAÇÃO

         Se você for um leitor atento, terá observado que ao final desse levantamento, podemos sem problemas proceder ao resumo do texto. Portanto, temos aqui um aprendizado paralelo: uma técnica para resumir textos. Diga-se de passagem, tarefa estafante e estéril para muitos que desconhecem os caminhos do resumo.

         Prosseguindo o levantamento de leitura, a outra pergunta:

  •  O que depreendi? Depreendi:

– conceitos, que precisam ser esclarecidos, embutidos em palavras como:

  → dialéticas;  

  → tessitura;

  → seminal;

  → nuclear.

         Depois desse passo, segue-se com o propósito de percorrer o texto. Passa-se ao segundo passo dessa escala, digamos assim.

2.2 Compreendendo o texto. Nesse nível, que demanda um pouco mais de abstração, a leitura deve ser feita com o seguinte espírito: compreender o texto pressupõe processar suas informações e associá-las ao conhecimento do mundo que já se tem. O movimento mental do leitor, nesse nível, é algo semelhante a um movimento centrípeto, aquele em que as grandezas se movimentam de fora para dentro do círculo, e nesse movimento se concentram em torno de um eixo (interno). Ou seja, a compreensão das coisas só se dá na mente do indivíduo se se encontrar (comunicar-se) com a experiência pessoal dele. Esta é externa ao texto, mas é sempre revisitada, no ato de ler, como imprescindível à compreensão.

         Vai-se confirmando que ler não é somente juntar palavras e frases. Aprofundando-se no esquema mental de perguntas pós-leitura, o leitor, orientando-se por esse segundo ponto, pode fazer este levantamento:

  •  O que compreendi? Compreendi que:

– as ideias dialéticas são opostas entre si, mas não se negam; ao invés disso, elas se intercomplementam;

– as orientações para as concepções de leitura e escrita confirmam o conceito dialético;

– em termos de desenvolvimentos das aptidões dos indivíduos, a leitura precede à escrita;

– o ato de ler pressupõe níveis diversos de captação das informações;

– todo texto apresenta um núcleo gerador de sentidos;

– as palavras-chave são o móvel do texto;

– os sentidos são abstrações que vão além da superfície;

– tessitura é toda a teia de ideias e sentidos articulados como um tecido que faz do texto uma unidade;

– seminal (relativo a semente) é um conceito relacionado ao que há de fundamental no texto.

OBSERVAÇÃO

         À proporção que se vão aprofundando os levantamentos, vão surgindo possibilidades de se formarem outros textos. Neste ponto, por exemplo, se articuladas as ideias com as do levantamento anterior, é possível se chegar a uma resenha.

         Passa-se agora ao terceiro passo da escala:

2.3 Socializando o texto. Nesse nível, concebe-se o texto como produção e produto social, que também se articula com elementos que estão fora dele, num movimento de dentro para fora, ou seja, num movimento centrífugo. Talvez este seja o ponto de maior abstração em termos de captação das informações textuais porque pressupõe também as subliminaridades. Aqui, o espírito da leitura é: socializar o texto pressupõe internalizar suas principais ideias e reflexões e associá-las a outras de caráter idêntico ou oposto.  Aqui, para o seu levantamento, o leitor pode-se perguntar:

  •  O que identifico como principais ideias e reflexões? Diria que se pode fazer este levantamento:

– o tema palavras-chave e o objeto leitura;

– diálogo entre leitura e escrita mediado pelas inferências do leitor;

– a dimensão social da leitura;

– os conceitos e as características atribuídos à leitura e à escrita;

– as considerações sobre texto;

– quem atinge todos os níveis de leitura torna-se um leitor crítico.

OBSERVAÇÃO

         Se olharmos atentamente, as áreas do conhecimento estão implícitas nos itens acima, cujas abstrações podem constituir temas para diversas dissertações, por exemplo.

         Chega-se ao quarto passo:

2.4 Articulando o texto. Aqui se lê o texto em sua estrutura, reconstruindo sua concepção arquitetônica, cujos pilares se assentam em coesão e coerência. Aqui se fundem tangibilidade e abstração. Aqui o texto se vê em sua condição de contexto social cujas relações endógenas determinam as funções de cada componente da estrutura. O espírito da leitura aqui é: articular o texto pressupõe compreendê-lo em sua tessitura, que começa pela organização gramatical das palavras e termina com a organização das ideias. As perguntas e investigações do leitor podem dar-se nestes termos:

  1. a) Que ideia x está para a ideia y?
  2. b)  Que termo x está para termo y?
  3. c)   Que termo x determina termo y?
  4. d)  Que termo x se identifica com termo y?
  5. e)   Que ideia x contrasta com ideia y?
  6. f)  Que termo x amplia a significação de termo y?

         E mais um universo de incontáveis possibilidades de questões podem figurar nesse levantamento que só pode ser feito e respondido tendo por manual o próprio texto.

 

3 – A PROPÓSITO DA PRODUÇÃO – expressando o pensamento crítico

         O quinto passo presume uma inversão de papéis dos sujeitos – produtor e consumidor de textos – o então leitor escreve, e em seu texto devem ser observados todos os passos inerentes à leitura. E assim se tem o quinto passo:

3.1 Escrevendo o texto. Este não é mais um dos níveis da leitura, mas a socialização de todos eles. Ao mesmo tempo, produtor e produto da leitura. O espírito aqui é imbuído de outra atitude linguística, a elaborativa, em detrimento da executiva: escrever o texto pressupõe a conversão do pensamento em signos e colocá-la no papel de modo compreensível a quem irá ler. A principal questão do leitor/escritor agora será: O que escrevo?

Ao longo do curso, ou percursos dos sujeitos, essa atitude será orientada de acordo com as especificidades dos textos que se desejam produzir.  

 

4 A PROPÓSITO DA GRAMÁTICA – articulando o texto; produzindo sentidos

O caso do a /a/

Escolhemos o A para analisar.  

Trata-se aqui de se atentar para a grafia e o emprego dos elementos distintos entre si, cuja emissão sonora é a mesma: /a/.

Como? A é diferente de A? Não é a mesma letra? Não seria diferente apenas quando se escreve com agá e com acento ()?

         Essas são algumas das perguntas que os professores escutam. Daremos aqui algumas respostas, partindo destas formas que nos são muito familiares: aà . Antes, porém, vamos voltar ao texto para tentar encontrar esses elementos em ação. Para os que não encontrarmos, criaremos um contexto. 

Ocorrências:

1 – A leitura e a escrita são faces dialéticas da linguagem.

2 – Lendo textos bem estruturados, podemos apreender os procedimentos linguísticos necessários a uma boa redação.

3 – Além disso, fornecem a pista para uma leitura reconstrutiva porque nos levam à essência da informação.

4 – Não é difícil penetrar no mundo da leitura, se a processamos com critérios.

5 – No mundo espaço para todos: para os que leem e os que não leem, mas é melhor ser um dos que leem.

Vejamos agora:

– Lendo-os nos quatro exemplos, a massa sonora que produzimos é a mesma: /a/. Esse fator, porém não impede que:

         a seja diferente de a. Só são iguais, nos exemplos acima, as ocorrência da frase 1.

         – dificilmente, no contexto textual, irá tratar-se de letra. É mais provável que a letra a só vá ser encontrada no alfabeto, ou algo similar, em meio a outras letras. Nos textos, concorrem palavras. Todos os as ou, nas frases de 1 a 5, são palavras distintas e têm funções distintas. Entre eles, só há coincidência sonora.

– Voltando aos exemplos confirmamos o que dissemos acima:

         – na frase 1, todas as vezes em que está marcada a palavra a, trata-se do artigo a, e sua colocação é sempre esta: antes de palavra substantiva, mesmo que haja outras palavras entre os dois (artigo e substantivo). As particularidades desta palavra, além da mencionada, são: nunca recebe qualquer acento; admite a flexão de número (plural: as), e em verdade, ela própria já é uma flexão, pois se trata da flexão de feminino do artigo o; pode-se contrair com preposições (à, da, na, pela); sua função articulativa é determinar o substantivo (sempre feminino), sintaticamente, denomina-se adjunto adnominal.

         – na frase 2, trata-se da preposição a. Como toda preposição, é uma palavra relacional. Pode ser colocada antes de qualquer palavra que admita preposição, mas nunca muda de forma, é sempre a, indiferentemente de estar antes de palavras masculinas ou no plural. Por vezes se contrai com o artigo a, ao que realiza o fenômeno da crase, cuja forma representativa é à (como é o caso da frase 3), em que já se percebe não se tratar de um a, mas de dois diferentes as, outras vezes combina-se com o artigo o, produzindo a forma ao. Algumas vezes surge em virtude da regência de alguns verbos e de alguns nomes.

         – na frase 4, trata-se do pronome a (feminino do pronome o), também admite flexão de número (plural: as). Sua relação com o substantivo é substitutiva, portanto, não se coloca juntamente com ele, nem antes nem depois, já com o verbo, sua relação é complementar e pode-se colocar antes, depois, ou no meio deste. Em função dessa posição, resultam a próclise, a ênclise e a mesóclise, a famosa colocação pronominal.

         – na frase 5, trata-se do verbo haver na terceira pessoa do singular do presente do indicativo (). Seu emprego se dará sempre que se possa empregar o verbo. É lícito o emprego desse verbo: quando indicar tempo decorrido (na indicação de tempo a decorrer, emprega-se a proposição: ex.: dois dias fiz uma leitura / a dois dias de fazer uma leitura, preparo-me como devo); no sentido de existir, acontecer, conter, portar-se etc.; como auxiliar nos tempos compostos; nas locuções verbais.

OBSERVAÇÕES

– Há, ainda, outra emissão de a. Trata-se da interjeição, cuja grafia é ah. Seu emprego é independente dos demais termos, pois representa emanações do espírito humano, é móvel na frase e não tem articulação nem função sintáticas. Suas contribuições ao contexto são semânticas.

– Este conteúdo busca esclarecer dúvidas sobre o emprego de a / à / há.

– Não confundir acento agudo (´) com acento grave (`). Para a representação da crase, jamais ocorrerá um á (com acento agudo), somente com acento grave, à.

 

CONSULTAS E REFERÊNCIAS

 

MESQUITA, R. M. Gramática da língua portuguesa. 1e. São Paulo: Saraiva, 1994.

MIGUEL, J. Curso de língua portuguesa. São Paulo: Harbra, 1989.

SAVIOLI, F. P.; FIORIN, J. L. Para entender o texto: leitura e redação. 16e., 5i. São Paulo: Ática, 2002.

VIANA, A. C. et alli. Roteiro de redação: lendo e argumentando. 1e., 6i. São Paulo: Scipione, 2001.

0 0 votos
Classificação do artigo
Inscrever-se
Notificar de
guest
0 Comentários

Acesse agora mesmo

0
Adoraria saber sua opinião, comente.x