Senhor Presidente da ACLP, senhoras e senhores, boa noite!
Esta noite de 27 de outubro de 2017 é uma noite de glória e júbilo, especialmente para o Professor Raimundo Evaristo Nascimento dos Santos, para a Professora Maria Margarete Fernandes de Sousa e para mim, esta que lhes fala, Professora Maria Gorete Oliveira de Sousa, por estarmos, nessa respectiva ordem, tomando posse e assumindo os compromissos acadêmicos inerentes às cadeiras de números 40, 13 e 1. Assim sendo, o Professor Raimundo Evaristo Nascimento dos Santos responderá doravante pela cadeira 40, cujos patrono e antecessor são Cândido Jucá Filho e José Rogério Fontenele Bessa; a Professora Maria Margarete Fernandes de Sousa responderá pela cadeira 13, cujos patrono e patrono emérito são Fausto Barreto e Waldemar Machado, que também é o primeiro titular, sucedido por Edmílson Sousa Lima e Carlos Augusto Viana. Saúdo os nobres confrade e confreira pelos dados que alteram, nesta noite, em suas biografias.
Quanto a mim, Professora Maria Gorete Oliveira de Sousa, responderei pela cadeira número 1, cujo patrono, Antônio Martinz de Aguiar e Silva, é destacado vulto na cultura cearense dos séculos XIX e XX; filólogo quase autodidata; depois, didata de reconhecida contribuição para a educação do estado, em especial, na cátedra do Português; doutor honoris causa pela Universidade Federal do Ceará. E o Professor Arnaldo Vasconcelos, meu imediato antecessor, é referência nacional e internacional, entre outras áreas, na Teoria Geral do Direito; coordenador por muitos anos do Curso de Direito da UFC; editor da Revista da Faculdade de Direito; catedrático em diversas disciplinas filosóficas que formaram sua área de especialização, como Filosofia do Direito, Teoria Geral do Direito, Hermenêutica, Lógica e Epistemologia Jurídica; autor de inúmeros artigos em revistas especializadas, bem como de vários verbetes da Enciclopédia Saraiva do Direito; membro fundador da ACLP, falecido em maio deste corrente ano 2017, lamentável evento que, pelo estatuto da Casa, imputa-lhe a condição de patrono emérito da cadeira que ocupara. A imortalidade desses nomes é, indubitavelmente, não questionável.
Quis o destino que chegasse a mim o conhecimento da vacância dessa cadeira, e que, para cujo preenchimento eu estivesse apta, portanto, poderia inscrever-me no pleito de concorrência pública, regulamentado por igualmente público edital. Candidatei-me à ocupante da vaga. Esse procedimento precedia a escolha do meu nome pela comissão acadêmica designada como primeira avaliadora do processo, a qual apresentaria sua decisão em sessão ordinária, para que, por voto secreto, os pares a referendassem ou a desabonassem. Qual alternativa validou-se naquela plenária de 28 de agosto de 2017, responde minha própria presença nesta noite, aqui, perante vossas senhorias.
Nessa data, iniciava-se, nova alteração em minha biografia. Alteração esta que se vai confirmando na missão – que muito me honra – de proferir ante as nobres presenças das senhoras e dos senhores um discurso por minha assunção desta cadeira e posse do título de acadêmica da Academia Cearense da Língua Portuguesa, sendo essa casa mais um lugar que me concede Deus a ocupar neste mundo.
Falando nas concessões de Deus em minha vida, não posso deixar de registrar que, por caminhos de exceção, essa biografia chegou até aqui. Esses caminhos de exceção começam numa escola rural do município de Tauá-CE – numa localidade conhecida por Lustal – e prosseguem por duas escolas públicas de Fortaleza. Nas três, as bases que me infundiram os educadores fortificaram-me o tutano das pernas para saltar sobre os obstáculos do determinismo social e do estigma daquela época, de que aluno pobre, e de escola pública, não passava no vestibular. Não poderia eu chegar até aqui sem mencionar o amor e o orgulho que sinto de ter estudado na antiga Escola Rural Dona Domingas Gomes de Aguiar, hoje, Escola de Ensino Fundamental Domingas Gomes de Aguiar; no Centro Educacional Moema Távora; e no Instituto de Educação do Ceará, todas escolas públicas, onde, em seu trabalho profícuo, e pelo exemplo, professores me ensinaram a calçar botas de sete léguas, e sair dali a passos largos.
O primeiro desses passos pôs-me nos bancos da Universidade Estadual do Ceará (minha eterna universidade do coração), ainda incrédula do quanto eu tinha conseguido andar; ainda sem acreditar em aonde eu tinha chegado, mas o fato é que eu estava ali, estudante universitária do Curso de Letras – curso escolhido no coração – aprovada no segundo vestibular de 1983. Seria eu professora por convicção, vocação e escolha; de Língua Portuguesa, por paixão, ou, sei lá, talvez, pelo traçado do destino.
Concluída a graduação, percebi que já havia alterado meus dados biográficos. Eu não era mais – quer dizer, não era mais o que a sociedade via – a menina assustada que chagara da escola pública rural para a escola pública da capital; nem mais era a aluna da escola pública; eu passei a ser a professora, mas de uma escola da rede particular de ensino.
Vieram os concursos públicos, e, mais uma vez, me valeram minhas botas de sete léguas. O primeiro em que concorri foi para docente da Marinha do Brasil. Obtive aprovação em todas as etapas, à exceção da última, a de classificação, por ter menos idade e menos experiência que a concorrente vencedora. Mas esse episódio serviu para que cada vez mais eu mergulhasse e me dedicasse ao estudo da Língua Portuguesa. Depois daquela frustração, vieram outros concursos nos quais concorri, alcancei aprovação, classificação, e um dia os assumi. Assim foi que me tornei professora do Estado do Ceará, do Município de Fortaleza e da então, Escola Técnica Federal do Ceará, atual Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará, porta por onde ingressei no serviço público federal em 1995, e passei os melhores, e mais profissionalmente ricos, derradeiros vinte e um anos de trabalho de minha vida, até me aposentar, no último novembro. Durante esses vinte e um anos de Instituto Federal, outras alterações se fizeram imperativas, e foram, gradativamente, inserindo novos dados biográficos na história dos meus passos.
Os tempos haviam mudado, as tecnologias mais e mais avançadas, as sociedades caminhando a passos cada vez mais largos rumo a um mundo globalizado, hiperlinkado pelo advento da Internet; meios e espaços de comunicação revolucionando-se; a linguagem explodindo em multilinguagens; as máquinas avançando sofisticadas; a interatividade revolucionando a produção de informação; conceitos como ciberespaço, cibercultura, nanotecnologia permeiam todos os setores da vida. Diante do quadro, que já se vinha formando havia algumas décadas antes do terceiro milênio, e só sinalizava avanço, e nunca retroação, graduação não mais satisfazia à carreira docente, em especial, à do professor com atuação em cursos superiores. E o que todas essas mudanças me diziam é que havia novamente chegado até mim a hora e a vez de voltar aos bancos da universidade. E assim foi.
Em 2003, ingresso no Curso de Especialização em Arte e Educação, no próprio IFCE, à época, CEFETCE, e, no início de 2005, apresento como monografia uma análise dos elementos de subliminaridade encontrados na peça O Rinoceronte, do dramaturgo franco-romeno, do Teatro do Absurdo, Eugène Ionesco, e conquisto o título de especialista. Em 2006, viajo a Curitiba para cursar mestrado em tecnologia na Universidade Tecnológica Federal do Paraná, onde dou prosseguimento à pesquisa da obra dramática de Ionesco; e em 2008, defendo dissertação em que analiso a linguagem com as representações de tecnologia no discurso dramático de quatro peças desse dramaturgo, O Rinoceronte e mais três: As Cadeiras, O Novo Inquilino, O Assassino, e retorno a Fortaleza com título de mestra na bagagem. Em 2010, ingresso no Curso de Doutorado em Artes da Universidade Federal de Minas Gerais, com o projeto de uma pesquisa acerca de elementos do cômico-sério, campo antigo de expressão cultural popular; protocampo do qual são oriundas muitas manifestações do Mundo Antigo, incluindo-se aí o carnaval medieval, de cujas formas, cores, linguagem, ritos, sincretismo etc., o filósofo da linguagem russo, Mikhail Bakhtin, fundamenta o conceito de carnavalização e teoriza a carnavalização da literatura na tese em que analisa as obras Gargantua e Pantagruel, do irreverente escritor francês do século XVI, François Rabelais. Postulando uma gênese comum entre a cosmovisão carnavalesca e a cosmovisão do Teatro do Absurdo dos anos 50 do século XX – não só mais na obra dramática de Ionesco, mas também no drama do irlandês Samuel Beckett – e ainda, trazendo como reverberações contemporâneas da visão de mundo desse teatro as peças Lesados, da dramaturgia cearense de Rafael Martins, e Amores Surdos, da dramaturgia mineira de Grace Passô, aos 18 de agosto de 2014, uma banca de cinco doutores, após apresentação e defesa, aprovou minha tese, e eu volto de Belo Horizonte, trazendo o título de doutora.
Comparável à emoção de auferir novos diplomas, de experienciar esses momentos, de exercer o magistério e dedicar-me à produção literária, havia sentido também em 2004, quando lancei meu, até o momento, único livro de poemas, Na Galáxia da Estrela Ímpar, e alguns colegas do trabalho passaram e me chamar de poetisa. Apesar de as mentes superbrilhantes e superdesenvolvidas de hoje rechaçarem essa palavra, para mim, ela tem seu charme, embora nada eu tenha contra a me chamarem poeta.
Importava-me mais o que aquele livro iria significar em minha história de vida, sobretudo, na medida em que era também a história dos calos das mãos de meus pais. História esta que ganhava, nas noites de autógrafo, um elemento catártico, bem como a metáfora do ponto que se aumenta no conto. Não dizem que quem conta um conto aumenta um ponto? Pois bem, o conto em questão era nada mais nada menos que minha própria vida, e o lançamento do livro colocava-me na condição de escritora. Estava aí um bom ponto que se aumentava no conto que seria, repetidas vezes, contado à minha filha. Contado, não com palavras, mas pela vivência, pela experiência e pelo exemplo.
Quanta metamorfose se imbricou na diegese do conto de uma menina que, a despeito da realidade, nunca se moveu por ambições desmedidas, mas também nunca deixou de avançar para o lado em que os sonhos desconhecem o impossível!
Nem imaginava eu que ainda haveria de um ponto tão raro ser aumentado no meu conto. E vejam vossas senhorias onde estou! Estou diante de seus honrosos olhos, proferindo esse discurso, pois assim determina o estatuto da Academia, e, dessa forma, a própria Academia referenda às senhoras e aos senhores a imortalidade de seus membros. E nesta noite, entro, quase sem acreditar, para a galeria dos imortais da ACLP. Em face dos currículos, do patrono, e do patrono emérito da cadeira no 1, toda a minha história parece apenas um curta-metragem de cineasta incipiente. Reconheço o tamanho da responsabilidade que me espera, mas estou convicta de que tudo farei para honrar o título de acadêmica, e, de alguma forma, responder com trabalho às perguntas da sociedade sobre o que faz um acadêmico. Nestas últimas semanas fui interpelada três vezes com esta pergunta: O que é que faz um acadêmico? Vali-me, então, de uma resposta muito simples. O acadêmico é um eterno pesquisador e, na medida em pesquisa, produz conteúdos inerentes à área de atuação do seu colegiado. Significa, pois, que somos continuamente movimentadores da cultura, buscando, produzindo e difundindo conhecimentos, específicos e afins, da nossa área de atuação na sociedade. Dessa forma, senhoras, senhores, Senhor Presidente da ACLP, faço de vossas senhorias avalistas de que, eu, Professora Maria Gorete Oliveira de Sousa, estive aqui, e, em cumprimento ao artigo 6o do regimento da supracitada academia, prestei o seguinte compromisso: “Prometo cumprir as disposições estatutárias vigentes e trabalhar pelo desenvolvimento e prestígio da Academia Cearense da Língua Portuguesa”.
Isto posto, encerro, dizendo-lhes da imensa honra de tê-los diante de mim, ouvindo-me educada e pacientemente. Peço desculpas se os cansei. Agradeço a presença de todos, em especial, a dos amigos que fizeram um hiato no tempo dos seus afazeres e estão aqui por mim. E, sobretudo, agradeço o apoio da família: minha filha, meus irmãos, minhas irmãs, meus sobrinhos e sobrinhas, meus cunhados, meus primos, cuja presença aqui é um depoimento inconteste de que estamos juntos não só em alguns, mas em todos os momentos da vida, como já temos estado.
Muito obrigada!
Fortaleza, 27 de outubro de 2017.
Maria Gorete Oliveira de Sousa