ACADEMIA CEARENSE DA
LíNGUA PORTUGUESA

dulcisonam et canoram linguam cano

CHEIRO DE PRIMAVERA

Regina Barros Leal Leal

 

                                     O segredo destas flores fechadas é que exatamente no primeiro dia de primavera elas se abrem, se dão ao mundo. (Clarice Lispector)

                         

      Escuta a música e os seus olhos observam os jardins floridos, belos com a vinda da primavera. Estação das flores, do amor, do sublime momento em que a natureza renasce e sorri com vários sons, tons e cores. Parece que brinca, saltitando na música e correndo com o vento. Preenche-se de flores com seus tons coloridos, pétalas azuis, brancas, e ternamente, nos transporta a lugares nobres, envolvendo nossas almas em expansão. Adentra a natureza no passeio deslumbrante, no deleite do som suave dos ventos e o perfume doce das flores na primavera. Sua alma em exultação canta canções nunca ouvidas, arrebatando-se ao espaço infinito.

     Na inebriante estação, sente amor à humanidade, imponderável. Ah, sentimento que não se traduz em palavras, nem gestos, mas no alcance da consciência filosófica.

     Suspira forte. Abre-se o céu, como uma cortina dourada. Surgem os raios de luzes, cantando a música da chegança da estação do verde, da esperança, do fluido etéreo do amor divinal. A primavera se espalha no chão, diluída no bálsamo sublime. Pasma, deixa-se envolver no inexprimível sentimento de benignidade!

Assim, no silêncio do êxtase, escuta o coração confiante na sinfonia do ar que se alastra na estação esplêndida. Ouve o som das flautas dos anjos, quase etéreos, no espaço cósmico. A música enche seus ouvidos de acordes melodiosos sem que consiga quase respirar. Assumindo o fôlego, encontra a linha do horizonte, onde pode descobrir o arco-íris. Meu Deus! A transcendência do universo enche a alma de benevolência. Momento magnífico onde as mãos tocam delicadamente nas teclas, onde escreve com ternura, os sentimentos, emoções, sensações. Os suspiros d’alma! Letras se conectam, derramando-se em fluidos divinos.

As palavras veem e não consegue parar de escrever. Respira forte e absorve o ar inebriada, um suave aroma. Imagina os córregos preenchendo os sulcos da terra, as flores perfumando o ambiente claro e magnânimo. As cachoeiras, a luz do sol iluminando as manhãs e as tardes no abraço amoroso com a noite vestida de estrelas.

Eis aí a primavera ao som de Vivaldi!

      Escrevi vislumbrando a nova era, enroscando-se e abrindo alas para as rosas balsâmicas, os pastos verdes, os grilos cantantes, os recintos escondidos nas fendas abertas ao preenchimento das águas correntes.           ”A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la” (Cecília Meireles).

A natureza na sua magnificência acorda o tempo em sua estação primaveril. Os sinos tocam, os pássaros revoam sobre os jardins, as pessoas vestem-se de cores, o sol brilha suntuoso e dá-se o renascimento.

Regina Barros Leal

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