Pílulas para o silêncio (Parte CXXXVIII)

CLAUDER ARCANJO, Membro Correspondente da Academia Cearense da Língua Portuguesa

O futuro é um punhado
de cinzas que o vento semeia.
(Francisco Carvalho, em “Futuro”)

Tentei antecipar minha passagem final, afoito e agoniado; mas, ao chegar diante de Caronte, o óbolo que lhe levava era uma moeda de papel. Nele, os rabiscos de um verso tosco e desenxabido. De lembranças, nenhum dito. Ele me olhou, com olhos de fúria e espanto, e me ordenou que cá voltasse. E, como castigo, prendeu-me aqui com elos de humildade a escrever, com fogo e sangue, tudo aquilo que eu julgava de todo esquecido.


Seu futuro terá o tamanho do metro do seu presente. E, acredite, a mesma marca do tecido do passado.


As cinzas que jogares com fúria frente aos passos dos outros obstarão os olhos teus.

As cinzas as quais, com zelo e denodo, ofertares ao terreno de outrem, estas, suprema graça, adubarão as árvores que ofertarão os frutos que alimentarão os teus.


Todo futuro nasce na esquina de outrora, no passo lento do agora. O tempo verdadeiro não suporta o mal-agradecido que teima em driblá-lo com atalhos.


Vem cá, mergulha no meu silêncio, e vê se ainda estou aqui. Se não escutares nada, saibas: eu cá comigo estou.


Notei que Caronte, antes de retornar, me deixou uma passagem aberta de volta, mas me pediu para escolher a data. Desde então, Hades corre lentamente no fundo do meu esquecimento.

Canção da espera

GISELDA DE MEDEIROS, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 16

Passas.
Teu vulto é um oásis
onde quero aprender
o ofício das areias
nas longas noites
em que as estrelas
fiam fios finos
de fluida luz.

Teus passos na tarde
ecoam ainda
em minhas manhãs,
alvacentas e lânguidas,
como o marulho das vagas
que ficaram para trás.

Mas passas,
indiferente e lento,
sobre meus anseios
com mãos enfeitadas de adeuses
a romper em flores
de esquecimento.

E passas tão perto de mim
e tão distante!
Não conheces o mapa
de meus arquipélagos
nem sabes da beleza
de meus profundos mares
onde há conchas e corais
em êxtase.

Talvez um dia
– um dia desses –
quando pisares as névoas
do meu tempo
e sentires pesar o teu tempo,
talvez, tu resolvas ficar
no tempo dos meus domínios…

É briba, mesmo!

VIANNEY MESQUITA, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 37

[…] Disse-lhe cobras e lagartos […]

Resulta bastante comum, em particular se procedente de pagos mais distantes dos centros urbanos e mais atrasados sob vários pontos de vista, a criança conduzir para a adultícia ideias equívocas acerca de fala e grafia de termos e frases aprendidos na infância, perpassando a adolescência, entrando na senectude e, muita vez, conduzindo a ideia enviesada no decurso de toda a vida, até seu ocaso. 

É fato recorrente tal suceder, por exemplo, e entre muitas outras obliquidades, com governo (“gonverno”), pele (“péa”), registro ou registo (“resistro”), deteriorado (“destiorado”), leite mungido (“mugido”), assessor (“assensor”), funcionário (“foncionário”) e aposentadoria (“aposento”). Aliás, hoje esta acepção de reforma por tempo de serviço ou motivo outro está dicionarizada – talvez sem muita responsabilidade de quem o fez – no sentido de pagamento de aposentadoria: hoje é dia de ir ao banco receber meu aposento.

Trouxe para a adultidade, e.g., a grafia desacertada de “ouriversaria” (ourivesaria), palavra por mim divisada, salvante lapso de memória, na placa da Óptica Sansão, na primeira vez quando fui, no caminhão do seu Luís Rebouças, de Palmácia a Fortaleza, a qual cedo corrigi, em razão das leituras de referência de formação, insertas na didática oficial, necessárias durante a quadra escolar e as quais afastaram esta e incontáveis imperfeições ortográficas carreadas da área rural para a “civilização”, como se dizia com aberto preconceito.

Um desses vocábulos, porém, ainda hoje objeto de dúvidas a respeito de seu emprego, coincide com a palavra briba, cuja averbação lexicográfica remonta ao ano de 1913, conforme o Novo Dicionário da Língua Portuguesa, de Cândido de Figueiredo (Lisboa, 1899, apud SALLES VILLAR; HOUAISS, 2003), há mais de cem anos, portanto.

Antes de prosseguir com o assunto da controvérsia BRIBA/VÍBORA, ainda ocorrente na contextura local, decerto em todo o Nordeste do Brasil, convém me reportar à configuração histórica e à taxinomia expressa pelos dicionaristas, lexicólogos de ofício, com suporte nos herpetólogos, responsáveis pelo estudo científico dos répteis.

            Em segunda acepção, é bom explicar, há outra espécie de herpetólogos, os dermatologistas das chamadas herpes (aqui em Palmácia, me lembro bem, chamava-se boqueira) cujas atribuições, dos dois especialistas, não se comunicam.

Em Portugal e, certamente, nas ex-colônias, como Angola, Cabo Verde e Moçambique, por exemplo, em língua oficial, briba é a mesma osga – nome vulgar, provindo do Árabe, de um gênero de sáurios habitantes das partes quentes da Terra, lagartos pequenos, lagartixas, nosso calangro branco do Nordeste, de significativa ocorrência no Ceará.

Na classificação científica procedida pelos estudiosos da ala de Carlos Lineu, naturalistas-zoólogos, ocorre o gênero Briba – fato o qual, decerto, já afasta a identificação atravessada com a palavra víbora, a nós crianças ensinada, aqui em Palmácia e noutros lugares, como correta, ao se pensar na dicção briba como a víbora do beiradeiro caipira, do matuto da praia (em uma das muitas significações de caiçara) e do analfabeto, simples corruptela do nome, consoante acontece, também, com Bocage-“Bocais” e Camões-“Camonge”, expressões correntes de emprego, ainda hoje, nas comunidades rurais.

Consoante às obras de referência, só há uma espécie do gênero Briba no Brasil, a Briba Brasiliana (assim, em latim, mesmo), ocorrente no Piauí e em Minas Gerais, em informação de teor por demais relativo, hajam vistas as características semelhantes dos seus estados vizinhos, com habitats parecidos, como Bahia em relação a MG e Maranhão e Ceará, comparativamente ao Piauí.  

Briba é, também, a despeito do informe retroexpresso, a designação ordinária conferida a alguns tipos de pequenos lagartos ocorrentes no Nordeste brasileiro, com o corpo alongado e os membros reduzidos, aquele calanguinho acostumado a dormitar por horas, à espera de pequenos insetos, atrás das imagens de santos apostas às paredes das casas. Daí o ditado: dorme igual a calango atrás de imagem de santo.

Os linguistas admitem, sem qualquer fato a iluminar a recepção dessa ideia, a possível deturpação linguística do termo víbora, transmudado no vocábulo briba, o qual, sob o prisma da herpetologia, é diferente em vários aspectos, como, por exemplo, no concernente à peçonha excretada por esse réptil, à semelhança das serpentes jararacas (Botrops jararaca) e cascavéis (Crotalus terrificus durissus), muitas vezes de picada letal.

De víbora, provém o adjetivo viperino, cujo significado é venenoso, mordaz, perverso e maléfico, enquanto o substantivo briba não produziu nenhum nome sugestivo de toxicidade, ruindade, mesquinhez, depravação etc. Extensivamente, pois, víbora representa a pessoa traiçoeira, de temperamento agressivo, a qual ninguém quer arrostar.

Víbora, por sua vez, sob o espectro da taxionomia zoológica, designa, consoante às obras lexicográficas arrimadas na herpetologia, as serpentes do gênero Vipera, família dos viperídeos, com cabeça grande, mais larga em relação ao pescoço, olhos com pupilas verticais e cauda curta e cônica. Também é a denotação comum a várias cobras venenosas, da subfamília dos viperíneos.

 A despeito de os dicionários registrarem, também, em acepções subsequentes (talvez até em razão do costume de se chamar de víboras aos nossos pequenos calangos brancos), os dois vocábulos como sinônimos, atentemos para a etimologia lácico-científica do gênero Vipera: do latim vipera, ae ‘serpente, víbora, réptil peçonhento’. Isto, então, longe está de corresponder à verdade, negada por muitas pessoas, as quais, inocentemente, pensam falar corretamente ao negar briba, quando estão redondamente equivocadas e, ainda mais, induzem seus circunstantes a persistirem no engano ou até a mudarem de opinião, bandeando-se para o lado falso.

De tal sorte, conquanto as obras de referência aceitem (no meu sentir, equivocadamente, haja vista a etimologia lácica há pouco reproduzida) víbora como sinônimo de briba, é vedado se propalar a inexistência da expressão briba.

Em virtude de tal confusão, me lembro bem, alguém falar em “vibra” e “bríbora”, como a cunhar meios-termos a fim de pacificar uma pendenga tão prosaica, mas arrastada no tempo, carreando dúvidas, não somente neste caso, o qual serve apenas de exemplo para diversas pendências linguísticas de semelhante natureza, impendendo, então, serem aquietadas.

Não acalente mais dúvidas, então, o leitor, pois é BRIBA, MESMO!

Observação – De caso pensado, deixei de empregar no texto a partícula que.

O capão

RAIMUNDO DE ASSIS HOLANDA, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 22

Minha mãe criava galinhas, galinhas de capoeira, para uns, galinha pé duro, para outros. Não conto as vezes em que saboreamos galinha à cabidela, com pirão de farinha de mandioca. Prato apreciado em todo o nordeste brasileiro. Ingredientes deste prato: pedaços de várias partes da galinha, ensanguentados com o sangue da penosa.

Mamãe sabia com maestria preparar um capão. Coitado do franguinho. Com faquinha bem amoladinha, ela extraía os quimbas do galinho. Ficava este confinado no chiqueiro, para engorda.

Miguelino adora capão. Mora ele nas brenhas do sertão nordestino, em casa de taipa, construída em um capão de mato. Era homem trabalhador, da roça. Ágil no manuseio do machado e da foice. De repente, o roçado estava pronto para a semeadura de milho e feijão. Jerimum e melancia cresciam no barreiro, depositário de casca de banana, manga, caju, formando, com o tempo, composto orgânico. Daí, os nutridos jerimuns caboclos e de leite, e melancia, doce que nem mel.

Miguelino, de namoro firmado com Roseli, moça fagueira, cabelos de graúna, caídos até a cintura. Os pais consentem namoro, mas Miguelino não ia amassar banco por muito tempo. O fato é que logo casaram.

Os noivos foram festejados com dois saborosos pratos: galinha à cabidela e cevado capão.

Nos idos do século XX, nas brenhas do sertão nordestino, era costume: a noiva ficava uma semana retida na casa dos pais. Lua de mel só depois desse período.

Roseli era perita nos bilros. Tecia lindos Ós, rendas, de vários desenhos. A venda do produto auxiliava na manutenção da casa. Os meses foram passando, na contagem da vizinhança, mais de nove meses, e nada de a barriga de Roseli aumentar. Aí começam os titis. Onde estará o problema? Nele ou nela?

Em segredo com as amiguinhas, confidenciava ela que o ritual era seguido à risca.

Nesses dez meses de casada, mensalmente, a regra aparecia.

Roseli consegue convencer Miguelino a procurar médico. Teria que se deslocar até a cidade mais próxima, distante cinquenta quilômetros.

-Home, procura um médico, aliás, vamos os dois. O médico nos examinará e descobriremos se o “defeito” está em mim ou em ti. E assim foi feito.

Após o exame de Roseli, o diagnóstico sugere que ela não tem nada que impeça uma gravidez.

Causa da infertilidade está em Miguelino. O médico chama-o de lado e diagnostica:

– Miguelino, o amigo é capão.

Retorna à casa, junto com a mulher, mas muito capiongo. Uma tristeza que fazia dó. O dilema: o que vou dizer para Roseli?

Um dia, tomou coragem, chama a mulher na camarinha e dá-lhe a notícia. Roseli arregala os olhos, cheia de surpresa, sai-se com esta pérola:

– Foi tua mãe quem fez isso quando tu eras garotinho?

(Assis Holanda – Agosto de 2019)

Valdemir Mourão autografa duas de suas obras, dia 19, no Shopping Benfica

A Associação Cearense de Escritores e o Shopping Benfica convidam para o lançamento de duas obras do Prof. Valdemir Mourão – “Reflexão e produção de textos” e “Valor simbólico das cores de Vidas Secas de Graciliano Ramos”. Será na Galeria BenficArte, no primeiro andar daquele centro de compras. O endereço é Av. Carapinima, 2200, bairro Benfica, em Fortaleza.

Valdemir Mourão é membro da Academia Cearense da Língua Portuguesa, onde ocupa a Cadeira n° 19, patroneada por José de Sá Nunes. Presidiu a ACLP no biênio 2016/2018 e, na atual Diretoria, é o Vice-Presidente.

ACLP e Ari de Sá convidam para Encontro de Professores de Redação e Corretores

Professores de redação

Foram abertas inscrições para o II Encontro Cearense de Professores de Redação e Corretores, agendado para o próximo dia 29 de junho, na Faculdade Ari de Sá (Av. Heráclito Graça, 826), em Fortaleza. O evento, que se inspira no tema “Redação e gramática: o texto e a regra na escrita contemporânea”, se constituirá em um rico momento de debate e troca de conhecimentos sobre questões relevantes como a redação no ENEM, a gramática e a leitura.

As inscrições já podem ser feitas através dos sites:

https://www.eventbrite.com.br/e/ii-encontro-cearense-de-professores-de-redacao-e-corretores-tickets-62959827539

e

https://www.socorrecao.com.br/

Estão previstas palestras, mesas redondas, oficinas e lançamento de livros. Ao adquirir seu ingresso, o participante garante o recebimento de pasta personalizada e camisa do evento, além de participação no lanche e no coquetel de encerramento. Estudantes universitários ou do ensino médio pagam R$ 50,00; professores e demais profissionais, R$ 80,00.

O II ECPRC é promovido pela Academia Cearense da Língua Portuguesa (ACLP) e Faculdade Ari de Sá. Segue-se a programação do dia 29/06/2019:

De 7:00h às 8:00h

  • Credenciamento dos participantes

De 8:00h às 8:50h

  • Palestra de abertura: “Ler e escrever – o real e o poético nos dias de hoje”, por Mailson Furtado, ganhador do Prêmio Jabuti de Literatura, e Teoberto Landim, Presidente da ACLP

De 8:50h às 9:50h

  • Mesa redonda: “A gramática no texto e os recursos de coesão – A redação de vestibular e as redes sociais” (Professores Raimundo Evaristo, Felipe Filho, Diego Pereira e João Dionísio)

De 9:50h às 10:15h

  • Lanche

De 10:15h às 12:00h

  • Oficinas de Produção Textual 1 (Prof. Marcelo Braga), Produção Textual 2 (Prof. Vicente Jr.), Correção 1 (Profª Larissa), Correção 2 (Prof. Emerson), Tipologia e Gênero (Professoras Ritacy e Margarete), Marcadores Discursivos no Texto Dissertativo (Profª Elaine)

De 13:30h às 14:00h

  • Mesa redonda: “Escreva como uma garota”, com a participação de estudantes cearenses que obtiveram nota máxima na redação do ENEM de 2018 (mediadores: Professores Paulo Lobão e Vicente Jr.)

De 14:40h às 15:40h

  • Mesa redonda: “Ampliação do repertório sociocultural, processo argumentativo, caráter autoral e intervenção” (Professores Marcelo Braga, Ritacy Azevedo e convidados)

De 14:30h às 15:50h

  • Lanche

De 15:50h às 16:40h

  • Mesa redonda: “A redação e a escrita acadêmica” (Professores Myrson Lima e Valdemir Mourão)

De 17:00 às 17:30h

  • Lançamento de livros

De 17:30h às 18:00h

  • Coquetel de encerramento