ACLP: confraternização em clima de Natal

Reunindo grande número de participantes, entre acadêmicos e seus familiares, realizou-se nessa quarta-feira, 11, a confraternização natalina da Academia Cearense da Língua Portuguesa. Um jantar, no restaurante Dallas Grill, deu ocasião a sorteios e troca de presentes. Como pano de fundo musical, o jovem Vinicius, filho do acadêmico Marcelo Braga, executou ao violino peças do repertório do Natal. O bate-papo amigo serviu para os companheiros se atualizarem, mutuamente, sobre sua produção intelectual, vida profissional e familiar. Todas as travessuras dos netos foram expostas sobre a mesa. Saíram fortalecidos os laços de amizade.

Segue-se texto elaborado, especialmente para a ocasião, pelo acadêmico Batista de Lima.

Símbolos natalinos – Batista de Lima (Cadeira nº 36)

Os principais símbolos natalinos vêm marcados pelo número três. Começa que pode ser comemorado, de forma triádica, pela manhã, à tarde ou à noite, por homem, mulher e criança, com fé, esperança e caridade. Uma boa oração nessa ocasião faz bem, e pode ser feita de joelhos, sentado ou em pé. Não se deve esquecer do nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Tudo, no entanto, deve se iniciar com a Sagrada Família: Jesus, Maria e José. Ao festejar o nascimento da divina criança, convidar os três reis magos, que, segundo Mateus, eram: o persa Melquior, o indiano Gaspar e o árabe Baltazar, que presentearam ao recém-nascido ouro, incenso e mirra.

Deles surgiu a tradição de bem presentear. De preferência a três pessoas: um familiar, um amigo e um estranho necessitado. A tradição diz que em busca do presépio vieram três pastores. Eram judeus que no campo viram um anjo que lhes indicou o rumo de Belém, onde uma criança muito poderosa acabava de nascer. Chegando lá encontraram a Sagrada Família, os reis magos e três plantas: uma oliveira, uma tamareira e um pinheiro. O pinheiro verificou que só ele não produzia frutos. Apelou para o Criador, que lhe enviou uma estrela, uma lua amarela e um sol nascente.

Jesus foi criado sem usar internet, rádio ou televisão. Nunca se vacinou e chegou aos trinta anos sem fazer biometria, sem usar cartão de crédito e seu viajar à Disney. Não precisou ir ao cinema, não andou de roda gigante, nem tirou carteira de identidade. Viveu com Maria e José e mais ninguém de babá. Brincava com seu primo João, brincadeiras de criança sem usar tablet, smartphone nem computador. Falava o aramaico, lá a fala deles, e não precisou estudar inglês, nem francês nem mandarim. Foi criança, adolescente e rapaz sem torcer por time algum, sem pertencer a facção nem a torcida organizada.

Aos trinta anos, nas bodas de Canaã, fez seu primeiro grande milagre, multiplicando pães e côdeas, transformando água em vinho e reanimou a festa. Aos trinta e três, começou sua vida sacra. Foi vendido por trinta dinheiros, viu Pedro lhe negar três vezes às três da madrugada e foi crucificado ao lado de dois ladrões, ficando as três cruzes perfiladas no alto do Calvário. Às três da tarde deu-se a agonia do corpo. No terceiro dia ressuscitou e depois transfigurou-se ao lado de Elias e Moisés formando um trio no monte Tabor, espargindo luz incandescente. Interessante é que o nascimento ficou no fim do ano, e a morte no começo para provar que a morte é apenas o começo de uma passagem para uma vida maior.

Meus amigos, Natal é cognato de nascer. Nascer e renascer é algo que pode acontecer em qualquer dia. Foi-lhe no entanto dada uma data fixa. E há uma fraternidade que se manifesta maior nesse dia. Cristo nasceu para ser Rei, Sacerdote e Profeta. Todo ano consegue o milagre de transformar as pessoas por algumas horas. Vamos no entanto alongar esse natal anual e mensal, em diário. Vamos presentear sorrisos, apertos de mãos e abraços. Que os sinos toquem hoje, amanhã e depois.

Com tantos anos de sobrevivência dessa tradição natalina, que o momento seja de renovação. É preciso refletir para se saber qual a melhor forma de se renovar. Renovar costumes e práticas dentro da ética, da moral e da devoção. Refletir antes de escolher o caminho a trilhar. É preciso fazer com que o Natal perdure pelo ano inteiro nesse clima de fraternidade. É preciso fazer com que todo dia seja dia de nascimento de novas formas de viver. Que a grande árvore da vida seja enfeitada pelas virtudes e que o exemplo do Cristo Jesus permaneça em vigor no gênero humano. Dominus vobiscum per omnia saecula saeculorum. Dixit.

Dicionário de Gíria do Prof. JB Serra e Gurgel chega à 9ª edição

A biblioteca da Academia Cearense da Língua Portuguesa (ACLP) já incorporou a seu acervo a 9ª edição do “Dicionário de Gíria” do Prof. JB Serra e Gurgel. A obra, com 822 páginas, contém 34.268 verbetes – 268 a mais com relação à 8ª edição. Incluem-se aí 1.171 gírias de Portugal, 247 de Angola e 211 de Moçambique, além daquelas presentes nas redes sociais – muitas em inglês. Ressalte-se que, o primeiro dicionário de gíria brasileira, lançado, em 1912, por Elysio de Carvalho, já incorporava inúmeras expressões argentinas, italianas e espanholas.

Há muita discussão sobre os efeitos das gírias das redes sociais na Língua Portuguesa. Segundo o Prof. Serra e Gurgel, “cada vez mais os brasileiros leem menos e isso contribui para a redução do seu equipamento linguístico”. Considera o autor que “as redes sociais tendem a simplificar, a racionalizar e a efetivar uma intensa transplantação cultural. Há muito tempo que observamos essa transmigração, que, com as redes, foi intensificada, levando alguns especialistas a inferir que teremos uma degradação da língua no curto prazo”.

O Dicionário traz 2.613 verbetes do Rio de Janeiro, 656 do Ceará, 403 de São Paulo, 252 do Distrito Federal, 206 de Minas Gerais, 206 da Bahia, 191 do Amazonas, 110 do Paraná, 109 do Pará, 103 de Goiás, 55 do Maranhão, 46 de Rondônia, 39 de Pernambuco, 37 do Espírito Santo, 32 da Paraíba, 7 de Roraima, 5 do Amapá, 5 de Alagoas e 5 do Acre. Muitos daqueles atribuídos ao Ceará estão presentes em todo o Nordeste.

Dentre as temáticas mais numerosas estão as mulheres (1.645 verbetes), os malandros, o dinheiro, a corrupção, os homossexuais, os ladrões, os maridos traídos, os policiais e os bandidos. Serra e Gurgel revela que o “politicamente correto” não influi no processo de dicionarização, que está bem acima de quaisquer outras considerações e não se submete ao viés da censura.

O AUTOR

JB Serra e Gurgel nasceu em Acopiara/CE, estudou no seminário do Crato e, em Fortaleza, no Colégio Lourenço Filho e Liceu do Ceará. Graduou-se em Ciências Sociais pela UFRJ. Na Capital cearense, trabalhou na Gazeta de Notícias, O Estado e Rádio Dragão do Mar. No Rio de Janeiro, atuou na Última Hora, na sucursal do Diário de São Paulo, com Ibrahim Sued em O Globo, e na TV Globo. Trabalhou no IBC, Embratur e INSS, antes de entrar para o Ministério da Previdência e Assistência Social. Em Brasília, foi professor de Comunicação da UNB e assessor de 15 ministros de Estado, assim como de dois presidentes da República. Começou a elaborar o “Dicionário de Gíria” em 1990, relançando-o, desde então, em sucessivas edições cada vez mais elaboradas.

Contatos com o Prof. JB Serra e Gurgel podem ser feitos pelo e-mail: serraegurgel@gmail.com ou gurgel@cruiser.com.br

ACLP dá posse a novos membros em solenidade comemorativa dos 42 anos

A Academia Cearense da Língua Portuguesa (ACLP) realizou, sexta-feira, dia 22 de outubro, solenidade comemorativa dos 42 anos de sua instalação. Na ocasião, tomaram posse as novas ocupantes das cadeiras nº 23, Profª Ritacy de Azevedo Teles, e nº 33, Profª Eulália Vera Lúcia Fraga Leurquin. Também foi feita a entrega da Medalha Hélio Melo – principal comenda concedida pela ACLP – aos professores Ada Pimentel Gomes Fernandes Vieira, Ênio Silveira e Mário Barbosa Cordeiro.

O acadêmico Paulo Sérgio Lobão, responsável pelo cerimonial, destacou que a Academia, idealizada pelo inesquecível Hélio Melo, se consolidou ao longo dessas quatro décadas, conquistando destaque nacional editando publicações científicas, colaborando para a produção intelectual no campo da linguagem e partilhando saberes numa prática de profunda ascese.

Ao abrir o evento, o Presidente da ACLP, Prof. Teoberto Landim, deu boas vindas e agradeceu a presença dos convidados que lotaram o Teatro Nadir Papi Saboya, no Centro Universitário Farias Brito. Em seguida, dirigiu saudação especial às novas titulares das cadeiras 23 e 33, bem assim aos três homenageados com a Medalha do Mérito Cultural Prof. Hélio Melo. Destacou, ainda, a importância dos dois lançamentos que ocorreriam naquele ato solene – o do 15º número da revista “Vernáculo” e do livro “Poemas do céu e do inferno”, de autoria do Prof. João Soares Lobo, ocupante da cadeira nº 25. Por fim, disse de sua alegria em ver a Academia cumprindo seu papel e ocupando espaço de relevo no cenário cultural cearense.

Após a apresentação das duas novas acadêmicas, missão confiada ao Prof. Vianney Mesquita (cadeira nº 37), o Prof. Teoberto Landim fez entrega do Diploma e do Colar Acadêmico, recolhendo, de cada uma delas, o juramento solene.

Professora Eulália Leurquin.
Professora Ritacy de Azevedo.

Na sequência, o cerimonialista apresentou o currículo resumido das três personalidades distinguidas, este ano, com a Medalha Hélio Melo, comenda que traduz o reconhecimento da ACLP ao mérito intelectual daqueles que empreendem esforços para se construir uma sociedade letrada e humanizada. A Medalha foi, então, entregue, pelo Presidente Teoberto Landim, através do Prof. Sérgio Melo (filho de Hélio Melo), aos professores Ada Pimentel, que se fez representar por sua filha; Ênio de Menezes Silveira; e Mário Barbosa, todos eles acompanhados pelos respectivos padrinhos.

Para apresentar a revista “Vernáculo” e os “Poemas do céu e do inferno”, foi convidado o Prof. Vicente de Paula Júnior, ocupante da cadeira nº 4. O Prof. João Soares Lobo dirigiu breves palavras aos presentes.

Antes de se encerrar a solenidade, o auditório foi brindado com as brilhantes peças de oratória das professoras Eulália e Ritacy. Elas homenagearam os patronos e predecessores na cadeira que passam a ocupar e externaram o propósito de se empenharem pelo crescimento continuado da Academia.

Ao final, o Prof. Teoberto Landim renovou o agradecimento a todos e convidou para o coquetel que seria servido no pátio em frente ao teatro, onde o Prof. Lobo autografou seu livro.

ACLP comemora os 42 anos de fundação

A Academia Cearense da Língua Portuguesa-ACLP realiza na próxima sexta-feira, 25 de outubro, solenidade comemorativa dos 42 anos de sua fundação. Agendado para as 19:00h, no Teatro Nadir Papi Saboya, espaço cultural do Centro Universitário Farias Brito (Rua 8 de setembro, 1331 – Varjota), o evento reunirá acadêmicos e seus familiares, representantes de entidades culturais do Ceará, além de convidados especiais. A programação prevê:

Medalha Prof. Hélio Melo.
  • Posse das professoras Ritacy de Azevedo Teles, na Cadeira nº 23, e Eulália Vera Lúcia Fraga Leurquin, na cadeira nº 33;
  • Entrega da Medalha Hélio Melo aos professores Ada Pimentel Gomes Fernandes Vieira, Ênio Silveira e Mário Barbosa Cordeiro
  • Posse das professoras Ritacy de Azevedo Teles, na Cadeira nº 23, e Eulália Vera Lúcia Fraga Leurquin, na cadeira nº 33;
  • Entrega da Medalha Hélio Melo aos professores Ada Pimentel Gomes Fernandes Vieira, Ênio Silveira e Mário Barbosa Cordeiro;
  • Lançamento do nº 15 da revista “Vernáculo”, editada pela ACLP; e
  • Relançamento do livro “Poemas do céu e do inferno”, de autoria do Prof. João Soares Lobo, membro titular da Academia (Cadeira nº 25).

A ACLP foi fundada a 28 de outubro de 1977, sob a presidência do Prof. Hélio de Sousa Melo. A seu lado, integrando a Diretoria inaugural, estavam os professores José Rebouças Macambira, Itamar Espíndola, José Fernandes, Myrson Lima, Itamar Filgueiras, Hamilton Andrade e Abdias Lima. Hoje, encontra-se à frente da Academia, liderando sua 21ª Diretoria, o Prof. Teoberto Landim.

Pílulas para o silêncio (Parte CXXXVIII)

CLAUDER ARCANJO, Membro Correspondente da Academia Cearense da Língua Portuguesa

O futuro é um punhado
de cinzas que o vento semeia.
(Francisco Carvalho, em “Futuro”)

Tentei antecipar minha passagem final, afoito e agoniado; mas, ao chegar diante de Caronte, o óbolo que lhe levava era uma moeda de papel. Nele, os rabiscos de um verso tosco e desenxabido. De lembranças, nenhum dito. Ele me olhou, com olhos de fúria e espanto, e me ordenou que cá voltasse. E, como castigo, prendeu-me aqui com elos de humildade a escrever, com fogo e sangue, tudo aquilo que eu julgava de todo esquecido.


Seu futuro terá o tamanho do metro do seu presente. E, acredite, a mesma marca do tecido do passado.


As cinzas que jogares com fúria frente aos passos dos outros obstarão os olhos teus.

As cinzas as quais, com zelo e denodo, ofertares ao terreno de outrem, estas, suprema graça, adubarão as árvores que ofertarão os frutos que alimentarão os teus.


Todo futuro nasce na esquina de outrora, no passo lento do agora. O tempo verdadeiro não suporta o mal-agradecido que teima em driblá-lo com atalhos.


Vem cá, mergulha no meu silêncio, e vê se ainda estou aqui. Se não escutares nada, saibas: eu cá comigo estou.


Notei que Caronte, antes de retornar, me deixou uma passagem aberta de volta, mas me pediu para escolher a data. Desde então, Hades corre lentamente no fundo do meu esquecimento.

Canção da espera

GISELDA DE MEDEIROS, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 16

Passas.
Teu vulto é um oásis
onde quero aprender
o ofício das areias
nas longas noites
em que as estrelas
fiam fios finos
de fluida luz.

Teus passos na tarde
ecoam ainda
em minhas manhãs,
alvacentas e lânguidas,
como o marulho das vagas
que ficaram para trás.

Mas passas,
indiferente e lento,
sobre meus anseios
com mãos enfeitadas de adeuses
a romper em flores
de esquecimento.

E passas tão perto de mim
e tão distante!
Não conheces o mapa
de meus arquipélagos
nem sabes da beleza
de meus profundos mares
onde há conchas e corais
em êxtase.

Talvez um dia
– um dia desses –
quando pisares as névoas
do meu tempo
e sentires pesar o teu tempo,
talvez, tu resolvas ficar
no tempo dos meus domínios…